Ttulo: O Sonho do Marqus.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1989.
Ttulo Original: The marquis wins.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros
fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.
BARBARA CARTLAND
A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes
de livros vendidos em todo o mundo

O sonho do marqus
Uma rpida agitao percorreu a mesa de jogo...
o marqus de Crowle venceu novamente. Em meio aos olhares de admirao e
cobia, ele se retira. Saiu para o jardim onde a lua nova e as estrelas
davam um toque de
magia ao lugar. Buscava um desafio, algo que o pudesse entreter mais do
que uma noite.
Como num sonho, v surgir uma jovem belssima, que, sem reservas, o
interpela: "Quanto quer para me tirar de Baden-Baden ainda esta noite e
me levar para a Inglaterra? "

Nova Cultural
Barbara Cartland
O Sonho do Marqus

Baden-Baden, a cidade cassino, a sorte do marqus de Crowle mudou para
sempre.

Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
Ttulo original: The marquis wins
Copyright: (c) Barbara Cartland 1988
Traduo: J. Braun
Copyright para a lngua portuguesa: 1989
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 - 3? andar
CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil
Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressa na Artes Grficas Parmetro Ltda.

NOTA DA AUTORA
A primeira vez que visitei Baden-Baden foi em 1933. Achei que era um dos
lugares mais belos do mundo. Hoje, depois de viajar para tantas outras
cidades e pases, ainda penso o mesmo. H algo de mgico que cerca aquela
cidadezinha to antiga, com o seu glorioso cassino, repleto de ouros e
cristais.
Os jardins do Fairytale Bremer Park Hotel formam lindos declives at
chegar ao rio Oos, que lentamente passa mais abaixo, com suas cascatas
rumorejantes e suas pontes romnticas.
Em Brincando com os coraes, meu primeiro romance ambientado em Baden-
Baden, e neste segundo, O sonho do Marqus, a herona hospeda-se no
Stephanie Hotel. Este nome deve-se  Gr-Duquesa Stephanie que, j em
1806, tornou Baden-Baden famosa. Sobrinha da Imperatriz Josephine,
Napoleo a fez casar-se com o gro-duque Karl Frederick de Baden. Infeliz
no casamento, Stephanie fez de Baden-Baden o centro de sua vida. Enquanto
a elite da sociedade europeia entretinha-se em seus sales, a cidade
tornava-se conhecida como a "capital de Stephanie".
O Bremer Park  o mesmo Stephanie Hotel daqueles tempos, e pode-se ainda
sentir toda a beleza e esplendor que a adorvel duquesa deixou
registrados em suas paredes e quartos, e at hoje invade o corao de
todos os que visitam Baden-Baden.

CAPITULO I
1867

- Senhoras e senhores, faam suas apostas!
Uma rpida agitao percorreu a mesa da roleta, enquanto todos colocavam
suas fichas nos nmeros escolhidos, em valores nunca inferiores a dois
mil francos.
Seguiu-se o costumeiro silncio ansioso, at que a voz do crupi soou
novamente:
- Preto, vinte e nove!
Ouviu-se ento um murmrio de admirao em toda a mesa, pois o marqus de
Crowle ganhara outra vez.
A enorme pilha de fichas sobre o nmero vinte e nove aumentara
consideravelmente. com o rosto impassvel, apesar dos olhares de inveja e
cobia voltados para ele, o marqus apanhou seus ganhos e levantou-se.
- Vai deixar a mesa, monsieur? - perguntou-lhe uma atraente dama
francesa, sentada ao lado dele.
- Prefiro no abusar da sorte, madame - o marqus replicou, com voz
entediada.
E, sem dar ateno a mais ningum, afastou-se da mesa para trocar suas
fichas por notas comuns.
Ainda no se decidira quanto ao que faria em seguida.
At o momento aquele fora um dia bastante auspicioso. Seu cavalo ganhara
as corridas, e acabava de reaver tudo que lhe custara a viagem at Baden-
Baden naquele exato momento, na roleta.
Fora um impulso que o fizera ir at ali. Comprara dois cavalos magnficos
em Paris, e depois de ter se divertido por l em companhia de uma das
mais notrias cortess, fizeraa saber de sua inteno de voltar
imediatamente  Inglaterra.
Ela lhe informara ento que pretendia ir para Baden-Baden.
Animado ante a perspectiva de j experimentar seus cavalos em uma das
pistas mais importantes da Europa, resolvera acompanh-la.
Cora Pearl acreditara que a nica razo para ele ter vindo a Baden-Baden
fora para segui-la. Uma das mais bemsucedidas e com certeza a mais
extica das grandes cortess de Paris, na verdade era inglesa tambm.
Nascera sob o nome de Eliza Emma Crouch, filha de um professor de msica
de Plymouth. com apenas doze anos fora seduzida por um vendedor de
diamantes de meia-idade. Ainda que voluntariosa, com um corpo perfeito e
cabelos ruivos, fora levada pelo mercador a um verdadeiro covil, perto de
Covent Garden, onde nada mais se fazia seno beber.
Depois do primeiro drinque, tudo o que se lembrava era de ter recobrado
os sentidos ao lado dele, na cama.
Essa experincia a deixara com um dio enorme pelos homens, e esse dio a
acompanharia pelo resto da vida. Assim, ela os fascinava, usava, feria-
lhes os sentimentos, tirava-lhes todo o dinheiro e, invariavelmente, os
deixava.
Nunca sentia ternura ou amor por homem algum.
Mas fora exatamente essa sua caracterstica que atrara o marqus. Ele
sentia exatamente o mesmo que Cora, em relao s mulheres.
Era um homem extraordinariamente rico, bonito e bemsucedido em tudo que
se propunha a fazer, por isso mesmo, as mulheres nunca o deixavam em paz.
Na verdade, ele teria achado surpreendente encontrar uma mulher atraente
que no tentasse fisg-lo.
Mas, por mais charmosas que elas realmente fossem, e por mais que
tentassem agrad-lo, o marqus acabava sempre
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entediando-se depois de um curtssimo perodo de tempo. E a despeito dos
rogos e lgrimas derramadas, ele as deixava.
Por isso, a atitude dura de Cora frente  vida o divertia.
Ela dera incio ao que chamava de sua coleo com um duque e um prncipe.
Em seguida viera o prncipe Orange, herdeiro do trono da Holanda.
Porm o mais distinto dos seus amantes fora o duque de Morny, meio-irmo
do imperador da Frana. Tinha todas as qualidades que Cora respeitava:
era forte, inteligente, rico e extravagante. Sem contar que lhe dedicava
uma lealdade infinita.
Em certa ocasio, sabendo que Cora fora expulsa do cassino de Baden-
Baden, ainda assim lhe oferecera o brao e a fizera entrar triunfante no
salo de jogos.
Morto o duque, Cora tivera um caso com o prncipe Napoleo, famoso por
seus escandalosos romances amorosos.
Agora chegara a vez do marqus fazer parte daquela coleo. Mas ele no
se importava em ser assim considerado. Simplesmente no conseguira
ignorar Cora quando a vira em Paris.
Ela agora era uma mulher muito rica, famosa por suas jias valiosssimas
e pelas festas, jantares e bailes de mscara estupendos que patrocinava.
Dessa vez fora a Baden-Baden sem o prncipe Napoleo, mas no era mulher
de contentar-se com um amante apenas. Victor Messna, terceiro duque de
Rivoli, fazia as vezes de seu protetor. Era ele que lhe pagava o
cozinheiro, Sal, que chegava a gastar trinta mil francos em comida para
apenas uma quinzena. E era esse mesmo duque que lhe dava dinheiro para
perder no cassino.
A uma coisa o marqus estava determinado: com certeza tambm gastaria
muito dinheiro com Cora, mas no a presentearia com seu cavalo, que
tornara seu nome conhecido por toda Baden-Baden ao cruzar em primeiro
lugar a linha
de chegada.
At mesmo no novo teatro da cidade, construdo em arenito de duas cores,
Cora j brilhara. No resistira  tentao de aparecer no palco logo na
inaugurao da nova casa de espetculos.
Fazendo o papel de Cupido, ela provocara enorme sensao em Paris certa
vez, no Thtre ls Bouffes-Parisiens. Um conde chegara a oferecer-lhe
cinquenta mil francos pelas sandlias com as quais Cora percorrera o
palco.
- Lembro-me muito pouco da pea - um dos amigos do marqus lhe dissera
quando chegara a Paris. - Exceto que Cora Pearl deu tudo de si para
aquele papel. Ela usava poucas roupas, mas lembro-me que os botes de
suas sandlias eram grandes diamantes.
O marqus rira desse comentrio, e acrescentara:
- J me disseram que em uma das ltimas piruetas da pea Cora caa para
trs, erguendo as pernas para o ar, de forma a mostrar que as solas de
suas sandlias eram totalmente recobertas de diamantes!
Era portanto enorme o luxo e a extravagncia que cercava aquela
personagem da alta sociedade parisiense. Por isso mesmo ela se encantara
tanto quando o marqus, logo no primeiro encontro, a presenteara com uma
simples caixa de marron-glac. Ainda que cada docinho tivesse sido
embrulhado separadamente em uma nota de mil francos.
 medida que o marqus atravessava a multido ao redor da mesa de roleta,
muitas mulheres belssimas o saudavam e chegavam a levar a mo ao seu
brao, esperando que lhes desse ateno.
No entanto, ele passava por todas com um olhar de indiferena. O desdm
em seu rosto era to caracterstico que poucas pessoas, tendo-o visto uma
ou duas vezes, incomodavam-se em comentar o assunto.
O cassino de Baden-Baden no s era o mais antigo da Alemanha,
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mas sem dvida o mais bonito.
O salo Lus XIV, cheio de afrescos pintados no teto e seus enormes
lustres, era incomparvel. Rivalizava-se com ele em beleza apenas o
saguo de entrada, estilo Lus XIII, com belos painis de parede.
O cassino como um todo tinha uma atmosfera diferente de qualquer outro
que o marqus j tivesse visitado. Da mesma forma, seus frequentadores
eram mais distintos, e as mulheres, mais encantadoras do que se lembrava
de ter visto em outro lugar.
A noite estava quente e, por um momento, como no o atrasse mais o jogo,
sentiu necessidade de um pouco de ar fresco. Assim pensando, resolveu
sair para o jardim, nos fundos do cassino.
Havia lampies ao longo dos caminhos que cruzavam o gramado, e lanternas
chinesas penduradas nas rvores. As estrelas soltas pelo cu, juntamente
com a lua nova que se elevava acima das montanhas, contribuam para dar
um toque de magia quele lugar.
Poucas pessoas passeavam por ali, pois quem resistiria ao fascnio dos
jogos, onde fortunas inteiras mudavam de mos naquele exato momento?
Alm do que l dentro podia-se ver no s os grandes aristocratas da
Europa, mas tambm as mais belas e famosas cortess de Paris, o que por
si s j era uma grande atrao.
O duque de Joinville fazia-se acompanhar pela bela Madeleine Brohan, a
estrela da Comdie Franaise. A grande diva das operetas, Hortense
Schneider, vinda dos palcos do teatro do cassino, agora acercava-se da
roleta.
O marqus, porm, preferia caminhar sozinho pelo jardim, experimentando
um grande alvio proporcionado pelo ar suave e lmpido da noite a roar-
lhe as faces.
No pensava em mulheres, mas sim no modo como seu cavalo atravessara a
linha de chegada, a uma distncia consi11
dervel dos demais concorrentes.
Fora divertido ver a fria dos outros proprietrios de animais,
confiantes de que receberiam os prmios excelentes que estavam sendo
oferecidos para atrair os melhores cavalos de Paris a Baden-Baden.
O vale do rio Oos no era espaoso o suficiente para abrigar o j
legendrio esporte dos reis; Jacques Dupressoir, o organizador das
caadas promovidas pelo cassino, encontrara um local simplesmente
esplndido prximo  vila de Iffezheim.
Enquanto isso, o Jquei Clube de Paris se incumbira da direo daquela
que passaria a ser a melhor pista de corridas da Europa.
Ao arrendatrio do cassino, monsieur Edouard Benazet, o empreendimento
custara trezentos mil francos, incluindo a pista e as trs arquibancadas
para o pblico. Mas com toda a certeza, ele j recuperara seu dinheiro e
gozava agora de uma grande margem de lucros.
O marqus j considerava um grande feito vencer os demais proprietrios
franceses, e esperava repetir o feito no dia seguinte, quando aconteceria
a mais importante corrida da temporada.
com toda certeza Cora j contava que o dinheiro do prmio seria gasto com
ela. Um tanto cinicamente, o marqus j tentara imaginar o que poderia
lhe dar que ela ainda no tivesse.
Em sua estadia em Paris, aprendera que o dinheiro por si s no
significava nada para ela. Afinal, todos os seus amantes anteriores
haviam sido mais que generosos neste sentido.
Cora podia ter mil defeitos, mas era sincera, at porque podia se dar a
esse luxo. Quando no gostava de um presente, no hesitava em recus-lo.
Certa vez o prncipe Paul Demidoff, um russo de incontvel fortuna, s
para aborrec-la, insistira em manter o chapu
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sobre a cabea dentro do restaurante Maison D'Or. Cora no pensara
duas vezes: quebrara-lhe a bengala na cabea, um incidente que ela agora
afirmava lamentar muitssimo, pois se tratava de uma bengala belssima.
Mas o tal prncipe ainda no se dera por satisfeito. Levantando-se
furioso, ele tentou humilh-la dizendo, aos brados, que as prolas do
colar que ela usava eram falsas. Cora no pensou duas vezes. Puxando o
colar com toda a fora, rompeu-lhe o fio e as prolas rolaram para todos
os lados do restaurante.
- Apanhe-as, meu caro prncipe, e mande examin-las ela dissera,
sarcasticamente. - Mas no precisa devolv-las. Mande fazer alfinetes
para as suas gravatas com elas, como prova da minha generosidade.
O prncipe nada respondera, transpassado de dio, mas todos os nobres que
jantavam no restaurante naquele momento abaixaram-se apressadamente para
garantir para si o mximo de prolas que pudessem.
O marqus rira muito dessa histria. Lembrava-se ainda de um outro
incidente que acontecera havia quatro anos, quando Cora travara a maior
batalha no Bois de Boulogne com outra cortes, Marthe de Vre. Brigavam
por um belo prncipe armnio, esbofeteando-se e se ferindo no rosto.
Na quinzena seguinte no puderam aparecer em pblico, tempo suficiente
para que seu belo Adnis desaparecesse por completo e Paris inteira risse
estrondosamente do ocorrido.
- Mas o que eu poderia lhe dar de presente? perguntava-se ainda o
marqus.
Nesse momento, porm, chegou  concluso de que no valia a pena
preocupar-se tanto com tal assunto. Em mais uma das suas j
caractersticas decises sbitas, resolveu que, imediatamente aps as
corridas, retornaria  Inglaterra. Cora, com certeza, no se importaria
com isso. E ele poderia ento voltar a Crowle Hall, onde centenas de
importantes compromissos
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o esperavam, alm de inmeros convites para festas, requisitando-
lhe a presena.
- vou voltar para casa - decidiu.
Foi ento que uma voz tmida e suave, bastante nervosa, soou s suas
costas:
- Posso falar com o senhor, milorde?
O marqus imediatamente levantou o olhar e deparou-se, sob a luz de uma
das lanternas chinesas, com uma jovem em p ao seu lado. O que mais o
impressionou nela foram seus dois olhos grandes e tristes, quase que a
tomar-lhe conta de todo o rosto.
Ela dirigira-se ao marques em ingls.
O primeiro pensamento que lhe acorreu foi que aquela jovem vira a
quantidade de dinheiro que ele ganhara no jogo e agora o procurava, para
pedir ajuda.
Era comum acontecer tal coisa em um cassino. Geralmente as mulheres se
ofereciam em troca do dinheiro ganho, e no raro surpreendiam-se quando o
marqus as recusava.
Como ele nada respondesse, a jovem continuou:
- Sei que no deveria incomod-lo dessa maneira, mas  que... estou to
desesperada. Sei que o senhor  ingls tambm, por isso me animei a vir
implorar-lhe ajuda!
- Presumo, com essa sua atitude, que pretende pedir-me dinheiro. Acertei?
- perguntou o marqus, em tom de desdm.
- No, milorde. Eu quero algo muito diferente.
Isso era certamente uma novidade. E foi o que levou o marqus, quase que
contra a vontade, a convid-la:
- Sente-se comigo aqui neste banco, e explique-se melhor. No lhe passou
despercebido o olhar que a garota lanou
por sobre os ombros em direo s luzes do cassino, antes
de passar por ele para sentar-se.
Mas, ao contrrio do que o marqus esperava, ela no se
sentou perto dele, preferindo na verdade ficar o mais distante
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que o comprimento do banco lhe permitiu.
Na posio em que estava, sentada da frente para o salo dos jogos, o
marqus pde ver-lhe o rosto muito jovem e, a no ser que a luz difusa
dos lampies e lanternas chinesas o enganassem, extremamente bonito. Seu
cabelo espesso brilhava como se tocado fio a fio pelas estrelas. Tinha os
olhos grandes e o nariz reto e delicado, sob o qual abriam-se lbios
perfeitamente desenhados, um tanto trmulos, com certeza por medo de
alguma coisa.
Vendo-a to perturbada, o marqus incentivou-a, procurando dar  voz um
tom mais gentil:
- Vamos, conte-me, o que a est preocupando? Ou melhor, antes de mais
nada, quem  voc?
- Meu nome  Daniela Brooke.
- Brooke? - repetiu o marqus quase que para si mesmo, tentando lembrar-
se de algum Brooke que conhecia.
- Meu pai era lorde Seabrooke. Eu o ouvi falando no senhor... e seus
cavalos.
- Sim, lembro-me agora de ter conhecido seu pai em Newmarket - disse o
marqus. - Mas isto j faz algum tempo.
- Papai faleceu - disse a garota. - E  por isso que estou lhe pedindo
socorro.
- Em que sentido?
- Ser que o senhor poderia me ajudar a fugir daqui e voltar para a
Inglaterra?
O marqus olhou-a surpreso.
- Fugir? - perguntou. - O que quer dizer com isto? Daniela olhou na
direo do cassino.
- Por favor - implorou ento -, oua-me at o fim. Mas... ser que no
poderamos nos afastar mais um pouco? Se me encontrarem terei de
acompanh-los... e talvez no encontre outra oportunidade para falar com
o senhor.
Em vez de argumentar, o marqus ps-se imediatamente em p, tomando mais
uma daquelas suas decises repentinas.
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- Tenho certeza que encontraremos outro lugar para nos sentarmos, onde
no seremos importunados.
Daniela levantou-se com a graa de uma jovem gazela.
Atravessaram a grama macia at que as luzes do cassino estivessem quase
que fora de vista.
Como o marqus j esperava, encontraram um outro banco convenientemente
colocado sob uma rvore e ladeado por arbustos que o escondiam ainda
mais. Era um lugar feito para os amantes, mas Daniela sentou-se, como da
outra vez, na ponta do banco.
Depois de acomodar-se e cruzar as pernas, o marqus perguntou:
- Agora vamos, diga o que quer de mim, e quando foi que seu pai faleceu?
- Foi h quatro semanas.
O marqus olhou fixo para ela, embasbacado.
- Quatro semanas apenas, e voc j est aqui, no cassino de Baden-Baden?
-  o que estou tentando explicar para o senhor.
- Sou todo ouvidos.
Na opinio do marqus, aquele era realmente um encontro inusitado,
principalmente considerando-se que estavam em um cassino. A despeito
disso, porm, sua curiosidade o fez prestar ateno no que aquela moa
tinha a dizer.
Daniela contou sua histria em voz muito baixa.
Enquanto desvendava sua narrativa absolutamente fantstica o marqus foi
percebendo que ela no s era muito educada, como tambm tinha uma grande
inteligncia.
Daniela comeou contando que sua me decidira que ela devia completar
seus estudos em um colgio de freiras em St. Cloud, nos subrbios de
Paris. Lady Seabrooke queria que sua filha falasse vrias lnguas
fluentemente, e em especial o francs.
- O mundo est se tornando cada vez menor - ela disser
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para a filha. - As pessoas viajam muito mais do que costumavam
fazer. H tantos ingleses que de repente descobrem-se incapazes de
comunicar-se com quem quer que seja em um pas estrangeiro, que
simplesmente comeam a falar mais alto, como se fosse este o problema!
Ela sorrira e continuara:
-  por isso, minha querida, que quero que voc adquira fluncia tanto em
francs quanto em italiano e, embora eu a considere uma lngua muito
rspida, em alemo tambm.
- Eu estava contente na escola em St. Cloud - explicou Daniela. - As
irms eram muito carinhosas comigo, e tnhamos os melhores professores
disponveis em Paris.
O marqus ento ficou sabendo que a me de Daniela morrera um ano atrs,
de mal sbito.
Acontecera to rapidamente que fora difcil para Daniela perceber que
perdera algum que tanto adorava. Seu pai ficara como que louco.
- Fui para a Inglaterra e fiquei com papai algum tempo
- ela contou ao marqus -, mas decorridos dois meses, ele insistiu em me
fazer terminar meus estudos. Assim, voltei para a Frana outra vez.
O marqus ouvia a tudo tentando imaginar em que aquela histria toda
poderia ter algo a ver com ele. Mas descobriu que a voz macia e musical
de Daniela tinha um poder quase hipntico, conseguindo afinal interess-
lo mais do que geralmente acontecia quando se tratava de problemas
alheios.
- Depois que deixei a Inglaterra - Daniela continuou papai veio a Paris.
Mais tarde ele comentou comigo que achara nossa casa to vazia sem mame
que no suportara ficar l. Por isso, alugou uma casa na rua do Faubourg
St. Honor. Era muito bom sab-lo perto de mim, mas passado um ms,
comecei a ficar preocupada.
Fez-se silncio por um momento, como se Daniela estivesse escolhendo as
palavras que expressassem mais adequadamente
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os seus sentimentos.
- Por qu? - o marqus afinal perguntou.
- Papai sempre levara uma vida tranquila no campo, mas tive a impresso
que ele andava se envolvendo com os prazeres da vida noturna de Paris, o
que certamente mame no teria aprovado.
- O que a fez pensar que isto estivesse acontecendo? quis saber o
marqus, um tanto cinicamente.
- Minhas colegas de escola tinham irmos que lhes contavam dos teatros e
restaurantes parisienses. E falavam tambm das belas damas que circulavam
por estes lugares, mas que no podiam ser recebidas em suas casas.
O marqus percebeu que, enquanto falava no assunto, Daniela corava,
envergonhada.
Mesmo assim, entendera muito bem o que ela quisera dizer. Duvidava que
Daniela sequer sonhasse com o comportamento extravagante de mulheres como
Cora Pearl e outras famosas cortess.
- Quando me encontrava com papai - Daniela prosseguiu -, o que geralmente
acontecia uma vez por semana, ele me parecia cada vez mais cansado e
diferente do que costumava ser quando estava em casa, no campo, com os
nossos cachorros e cavalos, e  claro, com mame.
Um pequeno soluo interrompeu-lhe a voz. Era visvel que somente com um
esforo enorme para se autocontrolar Daniela estava conseguindo
prosseguir sua histria.
- At que um dia, quando eu almoava com papai, uma senhora chegou.
Era como se a porta da sala de refeies da casa de seu pai se abrisse
novamente  sua frente, e Esm Blanc entrasse.
No era uma mulher bonita. Daniela nunca vira algum vestida com tanto
luxo, ainda que com um certo exagero. Indubitavelmente, porm, os
franceses a chamariam de chique.
Ela tampouco era jovem, embora seu rosto coberto d ps
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e maquilagens, bem como os lbios, que ostentavam um forte batom
vermelho, escondessem sua verdadeira idade.
Mesmo com o olhar fixo na recm-chegada, Daniela percebeu que seu pai se
retesara e que uma ruga lhe surgira na testa, quando ele perguntou:
- O que voc quer aqui, Esm? Eu lhe avisei que minha filha viria passar
o dia comigo hoje.
- Eu sei, Arthur - replicara madame Blanc -, mas acontece que eu esqueci
minha bolsa, e como estava precisando de dinheiro, fui obrigada a voltar
para apanh-la.
Daniela a olhava estarrecida.
Ningum lhe avisara que havia outra pessoa hospedada na casa com seu pai.
Imaginara-o morando sozinho.
Madame Blanc aproximou-se da mesa e olhou fixo para ela, de um modo que
Daniela achou bastante desagradvel.
- Ento  essa a sua filha, sobre quem tenho ouvido falar tanto! - ela
exclamou. - Encantada, meu bem.
Seu ingls tinha um forte sotaque, e aquelas ltimas palavras haviam sido
deliberadamente foradas.
Ainda que reconhecendo essa evidente falsidade, Daniela era uma menina
educada, e respondeu:
- Prazer em conhec-la, madame.
Esm Blanc mal tocou-lhe a mo com as pontas dos dedos, protegidos por
uma luva.
- Agora que a vi pessoalmente compreendo por que seu querido pai, uma
pessoa to gentil,  to apegado a voc.
Lorde Seabrooke no se movera, deixando-se ficar ali sentado, o cenho
franzido, obviamente desconcertado com a sbita apario de madame Blanc.
At que, no tom autoritrio que Daniela o ouvira empregar rarssimas
vezes, ele ordenara:
- Chega, Esm! J satisfez sua curiosidade. Estou certo de que voc tem
mais o que fazer.
- Mas -claro, mon cher - replicou madame Blanc. 19
Desculpe se o aborreci. Prometo compensar, esta noite.
Dizendo isso ela sorriu para lorde Seabrooke de uma maneira que Daniela
achou familiar demais.
com um puxo no vestido, ela saiu rapidamente da sala de jantar, deixando
atrs de si uma atmosfera desconfortvel e o aroma de um perfume francs
bastante forte.
Daniela sentara-se novamente, e seu pai apressou-se em lhe explicar:
- Eu j devia ter lhe dito que madame Blanc passar alguns dias aqui,
comigo.
- Quem  ela, papai? Nunca o ouvi falar dela.
- No - lorde Seabrooke admitiu vagamente. - Eu a conheci durante um
jantar, e ela me perguntou se poderia ser minha hspede.
Na semana seguinte, quando foi almoar em casa, Daniela percebeu que
madame Blanc ainda estava hospedada l. Acidentalmente, descobriu que a
porta do quarto prximo ao do seu pai encontrava-se trancada, o que era
muito estranho. Alm disso, havia um par de luvas de mulher sobre a
mesinha do hall, e uma sombrinha no meio dos guardachuvas.
Para confirmar suas suspeitas, o mesmo perfume extico pairava sobre as
almofadas do salo e no corredor, exatamente no ponto onde estava aquela
porta trancada.
Daniela pegou-se ento pensando em madame Blanc e tentando imaginar como
seu pai podia ach-la interessante depois de ter sido to feliz com sua
primeira mulher.
A casa em que viviam na Inglaterra parecia estar sempre cheia de risos.
Durante o funeral de sua esposa, lorde Seabrooke se apresentou com o
olhar preso ao vazio, o rosto plido, como se o estivessem condenando 
morte naquele momento.
Parecia absurdo que tivesse encontrado consolo to rapidamente.
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No meio da semana seguinte uma das freiras procurou Daniela em seu quarto
e lhe disse que seu pai acabava de chegar ao convento e desejava falar-
lhe.
Daniela apressara-se a descer at a saleta da Madre Superiora, onde o
encontrou com uma aparncia bastante estranha.
O que foi, papai? Algum problema?
Como ele nada respondesse, insistiu:
- O senhor no vai voltar para a Inglaterra?
- Por enquanto, no - ele afinal respondeu. - Mas h uma coisa que
preciso contar a voc.
Ela esperou para ouvir o que era, mas lorde Seabrooke apenas olhava pelo
pequeno escritrio com seu crucifixo na parede e um pequeno oratrio no
canto.
- No posso falar com voc aqui dentro - ele afinal desabafou. - Pedi 
madre superiora para lev-la para almoar, e ela concordou.
Os olhos de Daniela iluminaram-se.
- Oh, papai, que bom! Por favor, no pense que estou querendo fugir s
minhas obrigaes, mas gosto tanto de estar com o senhor?
- Ento se apresse, e apanhe um agasalho.
Daniela prontamente o obedeceu. Mas j no momento em que entrava na
carruagem que os esperava, soube que havia algo de errado com seu pai. E,
pela primeira vez, ocorreulhe a ideia de que jamais deveria ter deixado
seu pai sozinho.
Assim pensando, ela enfiou a mo entre os dedos do pai, procurando
confort-lo.
- No se preocupe tanto, papai. Eu estou aqui, e se o senhor quiser
voltar para a Inglaterra, eu o acompanharei e cuidarei do senhor como
mame teria feito se ainda fosse viva.
O pai apertou-lhe os dedos, deixando Daniela ainda mais ansiosa. At que,
em um tom de voz estranho, exclamou:
- Pelo amor de Deus, Daniela, no fale assim! Sobressaltada ante tal
reao, ela permaneceu em silncio
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at que a carruagem parasse junto a um pequeno restaurante, famoso por
ser caro, mas muito confortvel, sem falar na excelente comida.
S havia duas mesas ocupadas l dentro. Ante a insistncia de seu pai,
foi lhes dada uma mesa dentro de um reservado, deixando-os praticamente a
ss.
Lorde Seabrooke examinou o menu. Enquanto isso, Daniela o observava mais
detidamente e achou-o muito plido e abatido. Talvez ele esteja doente,
pensou, sentindo o medo crescer-lhe dentro do peito.
Feito o pedido e depois que o garom se afastou, ela estendeu a mo na
direo do pai, dizendo:
- Por favor, papai, conte-me o que o est preocupando tanto.
Ao que lorde Seabrooke, em uma voz que no parecia ser a sua, respondeu,
gravemente:
- No sei como lhe dizer isto, minha filha, mas... eu me casei?
- C-como? - Daniela gaguejou. Esperava ouvir qualquer coisa, menos
aquilo.
- Eu no estou entendendo...
Lorde Seabrooke permaneceu em silncio, at que conseguiu dizer:
- Nem eu entendo, mas aconteceu em um momento em que eu no sabia... o
que estava fazendo.
Daniela olhou-o embasbacada, ouvindo-o porm atentamente.
- Esm Blanc, que voc conheceu, embora eu lhe tenha dito expressamente
que no a queria por perto quando estivssemos juntos, estava determinada
desde o princpio a casarse comigo porque sou rico.
Daniela deixou escapar uma exclamao de horror, mas no o interrompeu:
- Ela me pediu, implorou mesmo, mas eu estava inflexvel
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no sentido de que ningum jamais iria tomar o lugar de sua me.
Havia uma visvel agonia em sua voz ao falar na primeira mulher, que
provocou lgrimas nos olhos de Daniela.
- Alm de qu - ele prosseguiu -, no tinha a menor inteno de dar-lhe
uma madrasta, e muito menos tratando-se de uma mulher como Esm Blanc!
- Mas ela  sua amiga, papai! Voc a hospedou em sua casa.
Lorde Seabrooke soltou um amargo suspiro.
- Sentia-me solitrio, minha querida, e sei que voc pode entender como
isso  duro. O motivo de minha vinda para a Frana  que eu no conseguia
suportar o vazio dos cmodos l de casa, esperando que a qualquer minuto
uma porta fosse abrir-se e sua me aparecesse, como que por milagre. Eu
estava ficando louco!
- Entendo - disse Daniela, - eu deveria ter ficado l com voc.
- Agora  tarde demais. Essa mulher conseguiu o que queria, e embora eu
mal possa acreditar que seja verdade, ela agora  minha esposa!
- Mas como o senhor pde pedi-la em casamento?
- Juro que nunca cheguei a faz-lo, e voc sabe que eu nunca lhe menti.
No tinha a inteno de casar-me com ela, e muito menos de impingi-la a
voc como sua madrasta!
Ele falara com tamanha veemncia que fez Daniela observlo novamente,
atnita.
- Ento... como foi que aconteceu?
- No me lembro de nada - respondeu lorde Seabrooke. - NS jantamos, e
havia alguns amigos dela em casa, ningum a quem eu sentiria orgulho de
apresentar voc. DePOis que acabou o jantar, no me lembro de mais nada!
- No?
- Nada, at que acordei na manh seguinte, na cama.
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Mostraram-me ento o registro do casamento, assinado pelo vigrio que nos
casou em uma pequena igreja em Montmartre.
- E esse registro...  legal? - Daniela quis saber.
- Esrn cuidou de todas as formalidades que a lei francesa exige. Um
amigo dela deve ter se feito passar por mim e falsificado minha
assinatura.
- Mas... papai!
Daniela no conseguia dizer mais nada, diante do horror do que acabava de
ouvir. Depois de um momento, porm, reuniu foras para perguntar:
- Papai, sob essas circunstncias, deve haver um meio de provar que esse
casamento  uma fraude!
- Eu teria de faz-lo junto  corte francesa - replicou lorde Seabrooke.
- Seria um caso longo e desgastante, cujos detalhes apareceriam
estampados com estardalhao nos jornais, tanto daqui quanto da
Inglaterra!
Daniela soltou um suspiro. Sabia o quanto um escndalo seria capaz de
humilhar seu pai, principalmente porque ele teria de admitir, diante de
toda uma corte, que permitira que uma mulher como Esm Blanc se
hospedasse por vrios dias
em sua casa.
E, de qualquer forma, sendo ingls, poderia no ganhar a causa, depois de
tanto sofrimento.
Fez-se um longo silncio, antes que Daniela perguntasse,
em um sussurro:
- O que pretende fazer agora, papai?
- No sei ainda - replicou lorde Seabrooke. - Mas eu queria que voc,
minha filha to querida, soubesse a verdade.
Enquanto Daniela repetia para o marqus essas ltimas palavras, sua voz
estava quase que totalmente embargada pelas lgrimas.
Como que envergonhada por sua incapacidade de controlarse, ela desviou o
olhar.
O marqus imediatamente estendeu-lhe um leno de linho
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fino, que ela aceitou depois de um pequeno momento de hesitao, e com
ele enxugou os olhos.
Ao mesmo tempo, o marqus chegava  concluso que nunca em toda a sua
vida ouvira uma histria to extraordinria, e ao mesmo tempo, to
instigante.
Graas  maneira como Daniela narrara todos aqueles fatos, ele pudera
quase que ver realmente descortinando-se  sua frente todos os lances
daquela tragdia.
Estava ansioso para ouvir o que acontecera depois.
Daniela, tendo enxugado os olhos, ficou ali sentada, o leno entre os
dedos, olhando para a escurido.
- O que aconteceu depois? - perguntou o marqus, levado por sua crescente
curiosidade.
Fez-se um longo silncio, antes que ela respondesse:
- Papai foi assassinado... em um duelo!
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CAPTULO II

- Duelo? - exclamou o marqus, pensando que jamais esperaria tal atitude
por parte de lorde Seabrooke.
Lembrava-se de ter encontrado o pai de Daniela certa vez no Jquei Clube
de Newmarket, e tambm, em outra ocasio, no White's Club de Londres.
Parecera-lhe um homem calmo, de meia-idade, e de muito boa aparncia,
revelando em cada gesto tratar-se de um perfeito cavalheiro.
Na Inglaterra, os duelos eram proibidos, mas nem por isso deixavam de
acontecer, com todo o sigilo possvel.
Na Frana, porm, onde os jovens eram mais extravagantes e
exibicionistas, eles eram muito mais comuns, principalmente como forma
maior de se expressar amor por uma dama.
Nem por isso o marqus se rebaixaria a ponto de deixar-se envolver em um
desses duelos.
Era mais comum v-los ocorrer em um determinado ponto do Bois, servindo
tambm de prato para as stiras mais ferinas da imprensa local.
Notando que Daniela parecia deprimida, o marqus convidou-a a continuar,
calmamente:
- Conte-me exatamente o que aconteceu.
- Eu no sei ao certo - ela replicou -, mas tenho certeza que Esm Blanc,
j ento a nova lady Seabrooke, tinha muito a ver com essa disputa. Mais
tarde eu soube que o desafiante de papai era um homem conhecido por ter
participado de dezenas de duelos, tendo sempre sado vencedor.
- E seu pai foi morto por ele! - exclamou o marqus.
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Era raro acontecer tal coisa. Geralmente, o pior que se podia esperar era
uma bala passando de raspo por um brao, o que resultaria em um pouco de
febre, e nada mais.
- Levei algum tempo para descobrir o que acontecera realmente - dizia
Daniela, em voz muito baixa. - Afinal, fiquei sabendo que o valete de
papai, muito devotado a ele, estivera presente ao duelo.
Depois de uma pausa, em que lutava para controlar a emoo, Daniela
prosseguiu:
- Quando o juiz gritou dez!, os duelantes se voltaram. Nesse momento,
porm, ao mesmo tempo que encarava seu oponente, papai, como perfeito
cavalheiro que era, atirou para o alto!
O marqus estava atnito.
Se aquele fora um gesto deliberado, ento lorde Seabrooke desejara
propositadamente morrer.
- A bala penetrou no peito de papai, junto ao seu corao. Ele ainda foi
levado para casa, mas faleceu naquela mesma noite.
Fora muito difcil para ela dizer essas ltimas palavras, mas de alguma
forma o conseguira. Enquanto o marqus admirava-lhe em silncio a
coragem, Daniela enxugou as lgrimas e, vendo-o calado, prosseguiu:
- Quando me contaram o que acontecera, foi difcil para mim acreditar que
papai realmente tivesse me deixado.
- Creio que posso compreend-la perfeitamente - disse o marqus, com
simpatia.
- A madre superiora levou-me pessoalmente a Paris, e desde o momento em
que se encontrou pela primeira vez com minha madrasta percebi que a
desaprovava.
Isso no foi exatamente uma surpresa para o marqus, mas ele preferiu
manter-se calado.
- E voc ficou na casa de seu pai enquanto ele era velado, ou foi levada
de volta  escola? - ele perguntou, desviando
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de propsito o assunto.
- Eu queria ficar com papai, e pedi a Deus que o levasse para junto de
mame - disse Daniela, com a simplicidade que lhe era caracterstica -,
mas minha madrasta insistiu em que eu voltasse junto com a madre
superiora.
Bem, pelo menos uma vez ouo algo de sensato que essa tal de madame Blanc
tenha feito, pensou o marqus. E, em voz alta, perguntou:
- Mas imagino que seu pai tenha sido enterrado na Inglaterra? Voc no
esteve presente aos funerais?
- Eu estava me preparando para essa viagem quando recebi uma mensagem de
minha madrasta pedindo-me para ir imediatamente a Paris, pois os
advogados de papai estavam a caminho para conversar conosco.
Daniela continuou sua narrativa, e cada vez mais o marqus sentia que ela
revivia em sua mente todo aquele drama.
A madre superiora apressara-se em comprar-lhe um vestido preto.
Haviam-na levado em um carro  casa da rua do Faubourg St. Honor,
acompanhada pela irm Teresa, uma das freiras do convento.
Ao chegarem foram recebidas por Esm, totalmente de preto. Seu vestido,
porm, fora feito por um dos grandes costureiros franceses, e no s era
extremamente elegante, como tambm dava a impresso de no ter sido feito
para um velrio.
com o rosto esforando-se para revelar uma dor que ela certamente no
sentia, e usando jias em profuso, Esm mais parecia uma atriz do que
uma viva.
Para livrar-se logo de irm Teresa, introduziu-a em uma pequena sala de
espera, de forma um tanto rude, na opinio de Daniela. Em seguida, fez
com que sua enteada a acompanhasse at a sala de estar.
- Muito bem, Daniela - Esm foi logo dizendo -, convidei
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os advogados, que j esto em Paris desde a noite passada, a virem
hoje at aqui para nos informar do contedo do testamento do seu pai.
Esm fez uma pausa, mas antes que Daniela tivesse tempo de dizer qualquer
coisa, ela continuou:
- Ah, sim, j ia me esquecendo. Imediatamente depois que nos casamos,
cuidei para que seu pai providenciasse um novo testamento. Afinal, como
sua esposa, creio que tenho direito de fazer parte da herana.
- Estou certa que papai fez o que achou mais certo e justo - foi a
resposta de Daniela.
- Mas  claro que sim! Afinal de contas, um homem tem que garantir o
futuro de sua mulher, principalmente no meu caso, que dei ao seu pai
exatamente o que ele queria.
Esm falava com uma voz dura, e Daniela sabia que ela ressentia-se de ter
de dividir a herana.
Nesse instante, uma dvida aterradora surgiu na mente de Daniela. Teria
aquela mulher persuadido seu pai a fazer um testamento tornando-a sua
nica herdeira, deixando-a ela, Daniela, de fora?
Se fora capaz de forar seu casamento fazendo uso de drogas, o que faria
Esm titubear ante essa possibilidade?
E mais, sendo ela to m, porque no se prestaria tambm a fazer com que
seu marido se envolvesse em um duelo mortal?
Era a primeira vez que tal ideia acorria  mente de Daniela. E ela era
inteligente o bastante para saber que, se no fora exatamente isso o que
acontecera, tampouco estava muito longe da verdade.
Mas no tinha como provar suas suspeitas. Portanto, de nada adiantaria
fazer uma cena. Restava-lhe apenas rezar muito para que seu pai lhe
tivesse deixado dinheiro suficiente pelo menos para que no ficasse
dependente de sua madrasta.
Estava decidida, tendo inclusive discutido o assunto com a madre
superiora anteriormente, que no final do semestre
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voltaria para a Inglaterra e para junto dos seus parentes. Na verdade,
fora a madre superiora quem dissera:
- Quando voc for para a Inglaterra para os funerais, minha querida, se
lhe convidarem para ficar, creio que seria melhor voc aceitar.
Daniela parecera surpresa, e por isso a freira continuara:
- Eu sei que seus avs so vivos. Tenho certeza que se vocs conversarem
sobre o assunto, chegaro  concluso que ser mais conveniente,
inclusive para a sua formao, se voc ficar com os seus, desfrutando do
carinho que s eles podero lhe dar.
- Prometo conversar sobre o assunto com vov quando for para a
Inglaterra, reverenda madre - Daniela respondera. - O enterro dever
acontecer dentro de poucos dias.
Na viagem para Paris, acompanhada por irm Teresa, Daniela conclura que
o conselho da madre superiora devia-se ao fato de ela temer ver sua aluna
convivendo com uma mulher como Esm Blanc.
 claro que sua madrasta no tinha a menor vontade de viajar para a
Inglaterra, para o enterro do prprio marido. Por outro lado, no seria
difcil imaginar a surpresa com que ela seria recebida pelos parentes de
lorde Seabrooke.
Quando os advogados chegaram, dois senhores ingleses j bastante idosos,
Daniela lembrou-se de j t-los visto antes.
Cumprimentaram-na respeitosamente, olhando em seguida, um tanto
aturdidos, para sua madrasta.
- Foi com o mais profundo pesar que fiquei sabendo da morte de seu pai -
disse o senhor Meadowfield para Daniela. - S me resta apresentar a voc
minhas mais sinceras condolncias, bem como as do meu scio aqui
presente.
- Muito obrigada.
- Eu os chamei aqui esta manh - Esm imediatamente os interrompeu -, no
apenas para que cuidem do transporte do corpo do meu marido para a
Inglaterra, onde dever ser
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enterrado no tmulo da famlia, mas tambm para que nos revelassem o
contedo do testamento que ele deixou.
j entrei em contato com monsieur Descourt, milady
replicou o senhor Meadowfield -, que tambm deve chegar aqui a qualquer
momento. Como a senhora j deve saber, lorde Seabrooke teve seu
testamento redigido por monsieur Descourt, que representa meu escritrio
em Paris.
- Estou ciente disso - emendou Esm, asperamente. Foi monsieur Descourt
quem me comunicou que meu marido no poderia ser enterrado aqui, o que
seria muito mais conveniente, mas sim na Inglaterra.
Daniela imediatamente deduziu que Esm entrara em contato com o senhor
Descourt com a inteno de descobrir os termos do testamento de seu pai,
ou talvez subornar o advogado, caso o testamento no lhe destinasse tudo
que sua ganncia queria. No fosse isso, Esmo no estaria sabendo que
todos os membros da famlia Brooke eram sempre enterrados atrs da
pequena capela da fazenda, na Inglaterra.
Quase como se o tivesse dito em voz alta, todos notaram que Esm Blanc
ressentia-se por mais aquele tempo perdido, enquanto esperavam a chegada
do advogado francs.
Naquele exato momento, porm, a porta se abriu e um criado anunciou:
- Monsieur Descourt!
Um senhor idoso entrou na sala, e para alvio de Daniela, tinha a
aparncia de uma pessoa respeitvel e confivel, assim como o senhor
Meadowfield e seu outro scio.
Esm cumprimentou-o friamente, revelando que, apesar de seus esforos,
no conseguira quebrantar a honestidade daquele senhor com seus subornos.
Rapidamente, o senhor Meadowfield assumiu o controle da situao.
- J que estamos todos aqui, creio que podemos comear - disse ele
friamente. - Pelo que me contou monsieur
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Descourt, milady, a senhora est ansiosa para ouvir o contedo do
testamento do seu falecido marido. Na Inglaterra, costuma-se esperar at
depois dos funerais para faz-lo.
- Mas isso no  absolutamente necessrio - defendeuse Esm mais que
depressa -, uma vez que o enterro acontecer na Inglaterra, e no aqui,
em Paris.
- Meu scio e eu concordamos com seu pedido para que tomemos todas as
providncias para os funerais. Levaremos o corpo de lorde Seabrooke
conosco para a Inglaterra amanh, onde j est tudo acertado.
- Sim, sim, tenho certeza de que os senhores sero da maior competncia
para tratar desse assunto - disse Esm, apressadamente. - Mas agora,
deixe-nos ouvir o testamento que meu marido fez dois dias antes de
falecer. - E olhou para Daniela enquanto falava, como se temesse que sua
enteada quisesse prolongar aquele assunto ainda mais.
Ainda que esforando-se para que no o notassem, Daniela apertava
fortemente as mos uma na outra, procurando assim adquirir um pouco de
autoconfiana, ao mesmo tempo em que permanecia calada. No deixara de
perceber, porm, que os advogados ali presentes estavam chocados com o
comportamento de sua madrasta.
O senhor Meadowfield abriu uma pasta, de onde retirou um grande nmero de
documentos.
- Tenho aqui comigo - ele comeou -, uma cpia do testamento que lorde
Seabrooke fez pouco antes de deixar a Inglaterra.
- Que obviamente est invalidado agora! - Esm interrompeu, bruscamente.
- Estou ciente disso, milady - replicou o senhor Meadowfield. - Ao mesmo
tempo, existem certas clusulas neste documento que, pelo que me instruiu
monsieur Descourt, constam tambm do novo testamento, e considero-as de
grande interesse para a senhorita Brooke.
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Enquanto ele falava, o senhor Descourt foi abrindo sua pasta, de onde
tirou uma papelada que obviamente era o novo testamento. Aps ajeitar
melhor os culos, ele comeou a ler em voz alta, em um excelente ingls,
ainda que com forte sotaque.
- O ltimo testamento de lorde Arthur Henry James Brooke, quinto baro de
Seabrooke.
Em uma linguagem difcil, legal e cansativa, ele prosseguiu a leitura.
Daniela teve a impresso de que sua madrasta teria dificuldade em
entender.
No entanto, quando o senhor Descourt chegou ao fim da leitura do
testamento, ela soltou um grito agudo. No havia dvidas que ela
entendera, e que no ouvira o que esperava.
Lorde Seabrooke deixara  nova esposa mil libras anuais, at que ela se
casasse novamente, quando ento passaria a receber duzentas libras por
ano. Tudo o mais, como no primeiro testamento, fora deixado para sua
nica filha, Daniela.
O aluguel da casa em Paris, inicialmente feito pelo perodo de um ano,
poderia ser ampliado sob pedido de sua esposa, e o valor seria pago pelo
esplio. Quaisquer outros gastos de Esm, porm, correriam sob sua
inteira responsabilidade.
A cena que ela fez, no entanto, foi absolutamente degradante. Esm gritou
com o senhor Descourt, afirmando que ele no cumprira as instrues do
seu marido como devia. Segundo ela, lorde Seabrooke se comprometera a
deixar-lhe uma larga soma em dinheiro, alm de dez mil libras anuais.
Chegou a ameaar os advogados ali presentes de lev-los aos tribunais sob
a acusao de fraude.
O ataque de histeria durou pelo menos uns dez minutos, ao fim dos quais o
senhor Meadowfield, em um firme tom de voz, advertiu-a que juiz nenhum
lhe daria ganho de causa e que o melhor seria ela contentar-se com as
mil libras anuais, alm do aluguel da casa. O que, na sua opinio, j
caracterizava uma grande generosidade de seu falecido marido,
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tendo em vista o curto perodo de tempo em que haviam ficado casados.
- E as dvidas que meu marido assumiu quando ainda estava vivo? -
perguntou Esm, quando conseguiu dizer alguma coisa que fizesse sentido.
- Tudo o que lorde Seabrooke devia at a ocasio de sua morte ser pago
imediatamente - replicou o senhor Descourt.
- Incluindo minhas roupas e jias?
- Tudo, milady, que seja datado at a morte do lorde. Houve uma pequena
pausa antes que o senhor Descourt
acrescentasse:
- Na verdade, tomei a liberdade de entrar em contato com as lojas nas
quais a senhora costuma comprar, e as contas que ainda no foram pagas j
se encontram em meu poder.
Esm Blanc soltou um suspiro desalentador. Via expirar sua ltima chance
de conseguir um pouco mais do que lhe havia sido deixado em herana.
Por outro lado, a expresso de vitria no rosto dos advogados demonstrava
claramente que sabiam muito bem com que tipo de pessoa estavam lidando.
- Voc no tinha o direito de fazer isso comigo! - Esm explodiu outra
vez com o senhor Descourt, conseguindo ofend-lo por mais cinco minutos
sem repetir-se uma nica vez.
- Asseguro-lhe que isso  absolutamente desnecessrio, madame - disse o
senhor Descourt, apanhando seus papis e pastas e colocando-se em p,
quando finalmente teve chance de falar. - Nada nem ningum lhe dar o
direito de alterar uma palavra sequer do testamento do lorde Seabrooke.
Os advogados ento retiraram-se todos. Daniela tambm estava ansiosa para
partir, e assim que teve oportunidade, disse:
- Sinto muito que isso tenha acontecido. Mas tenho certeza que a senhora
compreender porque papai quis me deixar a casa que sempre foi o meu lar,
 na Inglaterra, bem como demais propriedades, s quais estou acostumada
desde criana.
Esm estava prestes a voltar toda sua ira contra Daniela quando de
repente seus olhos se estreitaram, como se uma outra ideia lhe tivesse
vindo  mente. Em um tom foradamente suave de voz, ela ento disse:
- Voc tem razo, minha cara. Alm do qu, tenho certeza que voc ser
gentil e generosa para com sua madrasta, agora que sabe o quanto seu pai
gostava de mim, e como eu o fiz feliz.
Daniela bem o sabia, aquilo no passava de uma grande mentira, mas no
queria tornar tudo ainda pior.
- Creio que  melhor cuidar da minha viagem  Inglaterra - disse ento. -
A senhora ir comigo?
Por um momento Esm olhou fixo para ela, como se aquele fosse um assunto
que nem sequer considerara ainda. Afinal, respondeu:
- Sim,  claro! Como eu poderia permitir que seu pai fosse enterrado sem
a minha presena?
A vontade de Daniela era dizer logo que isso seria um erro, mas em vez
disso, apenas respondeu:
- Se vamos partir amanh de manh, posso mandar uma carruagem at o
convento, para apanhar minha bagagem? Minhas malas j esto prontas, mas
no trouxe nada comigo Porque no sabia se a senhora me permitiria passar
a noite aqui.
- Mas  claro que voc deve ficar - disse Esm. - Temos tanto para
conversar, antes de partirmos amanh de trem
Para Calais.
Mas a atitude de Esm Blanc no foi coerente com o que
 ela dissera. Depois de despachar irm Teresa na carruagem
 em direo ao convento, para mandar-lhe as malas, Daniela
subira para trocar-se para o jantar. Ao descer novamente, descobriu
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que Esm sara, sem dizer onde fora, nem quando voltaria.
Vendo-se sozinha naquela casa estranha, Daniela aproveitou para dirigir-se  saleta onde estava sendo velado o corpo de seu pai.
O caixo j fora fechado, mas haviam algumas flores sobre o seu tampo, e velas acesas de cada lado.
Depois de rezar ajoelhada por um longo tempo, enquanto se retirava, Daniela encontrou-se com o valete de seu pai, esperando-a do lado de fora da saleta.
Hudson estivera a servio de lorde Seabrooke por vrios anos, e chegara a conhecer sua primeira esposa. Daniela ficou contente em v-lo ali. Sabia que aquele fiel
amigo com certeza estava muito abalado, e por isso no se surpreendeu ao ver que havia lgrimas em seus olhos quando ele disse:
- Que coisa terrvel foi acontecer, senhorita Daniela! No posso acreditar que tudo no passa de um pesadelo. Parece que daqui a pouco vou acordar e encontrar o
meu mestre aqui, como sempre.
- Sim, creio que sinto o mesmo, Hudson - disse Daniela. - Mas no podemos ceder ao desnimo. Quando voltarmos  Inglaterra, temos de fazer com que tudo volte a ser
como ele gostava.
- Nunca mais ser a mesma coisa - tornou o valete tristemente, ao que Daniela concordou, calada.
Conversando mais um pouco com ele, Daniela descobriu que Hudson conhecia mais detalhes que ela sobre tudo que antecedera  morte de seu pai.
- Quando milorde veio para a Frana - ele contou -, pediu para sua tia Mary tomar conta da casa. At a governanta, a senhora Field, disse que tudo seria mantido
exatamente igual a quando a senhora sua me era viva.
- Assim espero - Daniela murmurou.
- No fique to preocupada, senhorita - consolou-a o
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valete, como se s ento lhe percebesse o abatimento. - Sua tia cuidar da senhora at que se case.
"S no sei quando  que isto vai acontecer", Daniela pensou, evitando diz-lo em voz alta.
Naquela tarde, enquanto sua madrasta esbravejava com o senhor Descourt, o outro advogado, o senhor Meadowfield, aproveitara para passar-lhe discretamente o primeiro
testamento de seu pai, indicando-lhe um pargrafo que ele no lera em voz alta propositadamente.
Dessa forma, Daniela ficara sabendo que receberia a quantia de duas mil libras por ano at que se casasse, ou at completar vinte e um anos de idade, quando ento,
todas as propriedades de seu pai passariam efetivamente ao seu poder. Enquanto isso no acontecesse, caberia aos advogados, eleitos pelo prprio lorde Seabrooke,
a guarda sobre todos os bens, estando autorizados no entanto a comprar-lhe qualquer coisa que desejasse, tais como cavalos, casas, vestidos ou viagens, fora da Inglaterra.
Aquela demonstrao de generosidade de seu pai a tranquilizara um pouco. E tambm o fato de saber que sua tia Mary, viva, ficaria encantada em viver na mesma casa
com ela e servir-lhe de dama de companhia. E quando acabasse o perodo de luto, aquela tia, acompanhada dos avs de Daniela, poderia apresent-la  sociedade londrina.
O futuro, ainda que muito timidamente, parecia sorrir para Daniela, assegurando-lhe que no ficaria abandonada 
prpria sorte. Afinal Esm chegou e, para surpresa de Daniela, estava toda sorridente e muito amvel.
- Sinto muito t-la deixado dessa maneira, minha querida - ela foi logo dizendo -, mas eu tinha de visitar alguns amigos ainda hoje. Na volta, passei pelo escritrio
de monsieur Descourt para pedir-lhe desculpas. Acho que fui um pouco rude com ele hoje  tarde.
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E, jogando as luvas displicentemente sobre o aparador do hall, continuou:
- Ele observou que a sua parte da herana constitui-se em uma grande fortuna, alm de uma casa adorvel e cavalos muito bons.
Daniela estava ficando embaraada, mas Esm parecia no notar:
-  claro que, como eu, voc receber penso at que se case, mas tenho certeza que logo, logo surgir um jovem belo e charmoso que lhe roubar o corao.
- Para ser sincera, no estou com pressa para que isso acontea - respondeu Daniela, mais que depressa. - No pretendo sair muito de casa, pelo menos enquanto durar
o luto. Por isso, creio que no terei oportunidade de conhecer outras pessoas.
Foi ento que se lembrou que s tinha um vestido preto.
- Suponho que no haja mais tempo para comprar alguns trajes de luto antes de viajarmos amanh? - perguntou, um tanto receosa. - S tenho este vestido, que a madre
superiora me deu, juntamente com um casaco para o frio.
- Oh, mas j  o suficiente por enquanto. Em Londres voc poder comprar vestidos mais bonitos.
- Sim, claro - Daniela concordou, pensando que dificilmente encontraria disposio para fazer compras depois dos funerais, quando ento j estivesse em companhia
dos seus parentes.
Mas sempre poderia usar um outro vestido qualquer, com uma faixa preta no brao, at que tivesse tempo de comprar algo mais apropriado.
- Os advogados informaram-me tambm - Esm estava dizendo -, que passaro por aqui amanh s oito e meia para apanhar o caixo, e que haver uma carruagem para que
o acompanhemos at a estao. Por isso, minha criana, com uma longa viagem  sua frente, seria melhor que voc jantasse
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em seu quarto essa noite.
- No quarto? - Daniela repetiu, surpresa.
- Sinto ter de deix-la novamente - sua madrasta continuou -, mas acabo de me lembrar de um compromisso que assumi h vrias semanas com alguns amigos, e no gostaria
de desapont-los.
- No, claro que no - concordou Daniela, achando pouco convincente aquela histria.
No entanto, subiu para seu quarto sem dizer mais nada. Uma criada ajudou-a a se despir. Aproveitando, Daniela pediu:
- Voc pode me chamar amanh s sete?
Queria levantar-se bem cedo para rezar mais uma vez junto ao caixo de seu pai, antes que o pusessem no carro funerrio.
A criada prometeu que no se atrasaria, e retirou-se. Pouco depois um lacaio entrou com o jantar, colocando-o sobre um aparador de quarto que a criada ali deixara.
Daniela preferiu sentar-se ao lado de uma chaise-longue que compunha a moblia do quarto, e fez com que colocassem a bandeja sobre uma mesinha, ao seu lado.
Embora sem fome, comeu um pouco do que lhe fora servido, pensando em como seria bom rever a casa onde fora criada ao lado dos seus pais, os cavalos que sempre adorara,
e os ces que os acompanhavam por todo lado onde fossem.
Terminado o jantar, nada mais lhe restava fazer seno ir para a cama. Nesse momento, a criada que a servira voltou, trazendo consigo uma outra bandeja. Antes que
Daniela perguntasse, ela explicou:
- Antes de sair, a madame mandou-me preparar um ch para mademoiselle, que a ajudar a dormir melhor.
- Foi muita gentileza da parte dela pensar nisso - Daniela agradeceu -, mas no quero mais nada, obrigada.
- Madame ficar muito desapontada - insistiu a criada.
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- Posso garantir-lhe que este ch  muito gostoso, verdade, madame o preparou pessoalmente. Eu s tive de acrescentar  mistura de ervas um pouco de gua quente.
Assim dizendo, a criada serviu o ch em uma bonita xcara de porcelana para Daniela, acrescentando, em tom angustiado:
- Por favor, mademoiselle, beba. Caso contrrio madame ficar brava comigo, por no a estar tratando apropriadamente.
Achando que seria grosseiro da sua parte recusar, Daniela bebeu o ch, e rapidamente adormeceu.
Quando chegou a esse ponto da narrativa Daniela fez uma pausa, e o marqus, que at ento ouvira a tudo com indisfarvel interesse, perguntou:
- O que aconteceu ento?
- Quando acordei, tive a impresso de que j ia bem avanado o dia - Daniela respondeu - e sentia-me muito doente. O marqus olhou fixo para ela.
- Doente? - ele repetiu. - Est querendo me dizer que essa mulher a drogou, da mesma forma que fez com seu pai?
- Exatamente. Eu fiquei to ruim que no pude sequer pensar em ir  Inglaterra.
- Mas ela viajou, acompanhando o caixo de seu pai?
- Sim, Esm partiu com os advogados. Por dois dias eu no conseguia sequer pensar com clareza. Afinal, acabei insistindo em ver um mdico.
- E qual foi o diagnstico?
- O doutor no soube me dizer exatamente o que havia de errado comigo. Receitou-me mesmo assim alguns remdios, que s me fizeram dormir. Por isso, depois da segunda
dose, parei de tom-los.
- Quanto tempo sua madrasta ficou fora?
- Ela voltou cinco dias depois, quando eu j estava bem o suficiente para levantar-me da cama e me recostar na
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chaise-longue.
- Mal posso acreditar nessa histria! - exclamou o marqus.
- Nem eu tampouco. Mas o pior foi que, to logo chegou, Esm comunicou-me que no me permitiria ir para a Inglaterra. E para impedir que eu fugisse, colocou Maria,
uma criada que havia anos a servia, como minha carcereira!
- como? - perguntou o marqus, incrdulo.
- Isso mesmo. Maria ficava comigo dentro do quarto, acompanhava-me quando eu saa para passear no jardim, e assim por diante. S se afastava de mim quando Esm a
chamava, certificando-se primeiro que a porta do meu quarto estava bem trancada.
- Mas e seus parentes? com certeza quiseram saber de voc.
- Se o fizeram ningum me contou. Cheguei a escrever-lhes, mas logo percebi que minhas cartas no eram encaminhadas ao correio. Eu no tinha escapatria, seno fazer
o que Esm queria de mim.
- E o que era? - quis saber o marqus, curioso e chocado ao mesmo tempo.
- Dinheiro. Ela ditava-me as cartas que eu tinha que escrever para os advogados em Londres, pedindo-lhes somas
 incrveis, que o senhor Meadowfield, sem desconfiar de nada, mandava prontamente para Paris. Pensei que minha vida seria essa priso para sempre, ou at que se
esgotasse a fortuna que papai me deixou, at que o vi!
- Mas o que foi que voc veio fazer em Baden-Baden? Sua madrasta tambm est aqui?
- Sim, claro. Foi ela quem insistiu em que vissemos para c. com certeza por temer que, em Paris, algum acabasse me descobrindo e denunciando a forma como eu estava
sendo tratada. Tanto que ela obrigou-me a assumir um nome falso quando fosse apresentada aos seus amigos aqui em
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Baden-Baden, enquanto ela mesma tomava para si o nome de condessa de
Bellevue.
- No acredito!
- Mas  verdade - assegurou-lhe Daniela, ainda segurando apertado o
leno de linho do marqus. - Ainda Tentei argumentar com Esm, e
cheguei a desafi-la a impedir-me de ir para a Inglaterra. Mas ento ela
me disse algo que at ento eu no percebera. com a morte de papai, at
que eu atingisse a maioridade, ela era minha tutora legal! Ainda que
algum parente quisesse vir me buscar, sem o consentimento de Esm, no poderia levar-me!
- Mas essa mulher  diablica! - exclamou o marqus, cada vez mais  exaltado.
- Talvez mais do que o senhor pensa - emendou Daniela. - Na noite em que
Esm me deixou sozinha, creio que ela foi consultar-se com algum
advogado, que lhe assegurou que, tanto pela lei francesa quanto pela
inglesa, eu s me veria livre de sua tutela quando atingisse a
maioridade, ou quando me casasse.
Daniela fez uma pausa, e olhando ainda para a escurido, afinal  continuou:
- Eu estava assustada... muito assustada. Por isso, achei melhor obedec-la e vir para c.
- No havia ningum em Paris a quem voc pudesse apelar? - perguntou o
marqus. - Por exemplo, um advogado francs?
- Eu j desistira da ideia de tentar entrar em contato com quem quer que
fosse. Antes de virmos para c Esm contratou os servios de um famoso
costureiro para que nos fizesse vestidos para a noite. Enquanto uma de
suas costureiras auxiliares trabalhava em meu quarto, cheguei a pensar em
tentar convenc-la a me ajudar, mas para isso eu teria de lhe dar
dinheiro, e Esm no me deixava ficar com nada do que os advogados lhe
mandavam da Inglaterra.
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E por fim, voc teve de vir para c.
- Sim, com uma poro de vestidos de todas as cores na bagagem, proibida
por Esm de acrescentar-lhes a faixa preta de luto aqui em Baden-Baden, e
tendo de assumir o nome de solteira de minha me, Lyndon. Como se j no
bastasse toda essa humilhao, Esm advertiu-me que, embora poucos
ingleses estivessem aqui nesta poca do ano, se ela me pegasse
conversando com algum deles, no pensaria duas vezes em mandar-me para um
hospcio!
- E foi por isso que voc quis vir mais para longe do cassino, no foi? -
perguntou o marqus. - Sem dvida, essa mulher no hesitaria em cumprir
essa ameaa, depois de tudo que voc me contou!
-  verdade - Daniela concordou. - Mas parece que afinal ela teve uma
ideia melhor, que poder benefici-la muito mais.
- E qual  essa ideia?
- Que eu devo... me casar o quanto antes! Todo o meu dinheiro ir ento
para as mos do meu marido, que ela pretende escolher... e controlar!
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CAPTULO III

O horror era evidente na voz de Daniela quando ela fez essa incrvel
revelao para o marqus.
- Pelo menos isso  algo que voc pode se recusar a fazer
- ele concluiu, depois de pensar por um instante no assunto.
- Ser? - replicou Daniela, desanimada. - Afinal de contas, papai no
fazia ideia de que se casara pela segunda vez at que se levantou na
manh seguinte e descobriu que aquela mulher era sua esposa!
O marqus esquecera-se desse detalhe. Daniela tinha razo. Se Esm Blanc
se dera ao trabalho de armar todo um plano ardiloso para conseguir o que
queria uma vez, no havia por que imaginar que no o faria novamente.
- Voc tem absoluta certeza de que  esta a inteno de sua madrasta? -
perguntou o marqus, tentando pensar em alguma outra sada para aquela
menina.
- Quando chegamos a Baden-Baden eu j desconfiava de que Esm pretendia
fazer alguma coisa do tipo. Na noite passada, porm, ouvi algo que me
deixou ainda mais amedrontada.
- O que foi?
Daniela explicou que estavam hospedadas em uma das sutes mais caras do
Stephanie Hotel, localizada logo no primeiro andar. Esm fazia questo de
desfrutar do bom e do melhor, principalmente porque o dinheiro no era
seu, mas sim da fortuna que sua enteada herdara.
O quarto maior e mais luxuoso,  claro, fora reservado pa44
ela. O quarto de Daniela, do outro lado da sala de estar, era menor, mas
tambm muito confortvel.
 claro que Esm levara Maria naquela viagem, e havia um pequeno cmodo,
ao lado do seu quarto, onde a criada dormiria.
Mas era impossvel levar Maria ao cassino. Por isso, Esm ordenou a
Daniela que jamais se afastasse enquanto estivessem no salo de jogos.
Sabendo-a capaz dos maiores escndalos, Daniela obedientemente colocara-
se atrs da cadeira de sua madrasta, j logo na primeira noite em que
desceram para o cassino, onde Esm fez altas apostas em dinheiro, que
rapidamente passavam para as mos de outros jogadores. Mas isso no a
incomodava; ali estava sua enteada, para garantir-lhe tudo que precisava.
Entre uma aposta e outra, Esm passeava o olhar pelo salo, por onde
circulavam damas to extravagantemente vestidas quanto ela prpria,
algumas dando evidentes sinais de j a conhecerem. O salo de jogos
estava tambm repleto de elegantes cavalheiros, que Daniela achou serem
na verdade o alvo dos olhares de sua madrasta. Esm, porm, parecia
procurar algum em especial, pois que a nenhum deles dirigiu um olhar ou
um sorriso mais significativo.
Depois de muito perder no jogo, Esm resolveu dar uma volta pelo cassino,
fazendo-se acompanhar, logicamente, por sua enteada.
Foi ento que ela encontrou o que procurava. Assim que entraram no salo
Lus XIV, soltando um grito de alegria, ela praticamente atirou-se sobre
um homem em p junto  Porta, at ento distrado com o vaivm das belas
cortess que desfilavam  sua frente.
Ele era magro, moreno e to nitipicamente francs que Daniela surpreendeu-
se quando sua madrasta chamou-a mais para Perto e, em ingls, disse:
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- Deixe-me apresent-la a um velho amigo meu, Danie. Le conde Andr de
Sauzan.
No entanto, enquanto suas palavras davam a entender que aquele homem
gozava de grande importncia e distino, seus olhares os traram, como
se Esm e aquele cavalheiro fossem cmplices em uma bem arquitetada
piada.
- Enchant, mademoiselle! - disse o conde, curvando-se exageradamente para
cumpriment-la.
Antes porm que Daniela tivesse chance de retribuir o cumprimento, Esm
tomou o tal conde pelo brao e foi logo dizendo:
- Oh, meu caro, que bom encontr-lo aqui! Temos tanto que conversar. - E,
em voz baixa para que sua enteada no a ouvisse, acrescentou: - E
asseguro-lhe que  sobre assunto do seu maior interesse.
O conde acompanhou-as pelo resto da noite, inclusive ao voltarem para o
hotel, mais cedo que de costume.
Para Daniela isso era um alvio, uma vez que no jogava, e achava
irritante ver sua madrasta desperdiando um dinheiro que no lhe
pertencia com tamanha leviandade.
Subiram para a sute, e Daniela foi mandada direto para o quarto, onde
Maria ajudou-a a despir-se. Antiptica como sempre, a criada mais uma vez
deixou claro considerar um abuso ser obrigada a servir duas damas ao
mesmo tempo, e ainda por cima, no que dizia respeito a Daniela, servir de
carcereira.
Terminado o trabalho ali, Maria foi para seu quarto.
Daniela soltou um suspiro de alvio. Como se j no bastasse a humilhao
de ver-se obrigada a ficar o tempo todo dentro do prprio quarto, sua
madrasta ordenara que todas as suas roupas fossem mantidas no quarto de
Maria, para o caso de ela de alguma forma tentar fugir.
Seria mesmo impossvel sair do hotel usando apenas uma leve camisola. E
ainda que estivessem no primeiro andar, ela
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no se arriscaria a quebrar o pescoo saltando pela
janela.
Como o sono demorasse a chegar, Daniela foi at a janela afastou as
cortinas e olhou para a noite.
O hotel tinha na frente um jardim que em suaves declives atingia as
margens do rio Oos, onde cresciam arbustos que eram podados de forma a
criar desenhos pitorescos.
De sua janela Daniela via o luar transformando a gua do rio em prata,
rebrilhando ao longe por entre as folhas das rvores. Acima daquele belo
jardim, estendia-se o cu majestoso, repleto de estrelas.
Aquela viso magnfica da natureza em seu calmo esplendor fez Daniela
ressentir-se ainda mais por estar entre aquelas paredes que lhe pareciam
as barras de uma priso.
Nesse momento lembrou-se que na sala de estar havia uma porta que se
abria para a sacada sobre o jardim. Se conseguisse chegar ali sem que a
notassem, poderia usufruir melhor da beleza da noite, alm de sentir
melhor a brisa que soprava balouando as folhas das rvores.
Assim, ansiosa ante a perspectiva de ver-se, ainda que por um breve e
ilusrio momento, livre, Daniela foi at a porta do seu quarto. E o mais
silenciosamente possvel, virou-lhe a maaneta.
quela hora, o conde com certeza j se fora, e Esm devia ter se
recolhido.
Daniela viu que as cortinas que davam para a sacada estavam abertas, bem
como a porta. Assim, andando na ponta dos ps sobre o carpete macio, ela
atravessou  sala e alcanou a sacada.
Nesse instante, uma voz de homem a fez estacar. Atordoada, Daniela
percebeu que o conde estava no quarto de sua madrasta. Aquilo foi um
choque. Afinal, Esm no o apresentara apenas como um "velho amigo"?
Em sua inocncia, nem lhe ocorrera que na verdade aquele
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 era o amante de sua madrasta.
Por um momento Daniela no conseguiu se mexer obrigando-se
involuntariamente a ouvir o que diziam. Ainda que no entendesse quando o
conde falava, a voz de Es me, ao responder-lhe, era sem dvida a de uma
mulher apaixonada.
Sentindo-se enojada, Daniela esgueirou-se pela porta da sacada e saiu
para a escurido, dirigindo-se para o extremo  oposto ao do quarto de Esm,
para no mais ouvir-lhes as  vozes.
Concluiu que era bobagem preocupar-se com as torpezas de Esm Blane. O
melhor era concentrar-se em uma forma de fugir-lhe das garras.
- Tenho de voltar para a Inglaterra... custe o que custar
- ela sussurrou, como se confidenciasse seu maior destino s estrelas. - Por
favor, papai, ajude-me. Voc no pode me deixar aqui com essa mulher
terrvel!
De repente um vento forte soprou do jardim, arrancando as folhas das
rvores e fazendo com que Daniela tremesse de frio, dentro de sua camisola.
Contando como agasalho as cobertas da cama, ainda que relutante, ela
voltou para a porta que ligava a sacada  sala de estar.
Agora havia um longo fio de luz tingindo o carpete no canto da sala, onde
ficava a porta do quarto de sua madrasta. com certeza o vento, entrando
pela sacada, abrira aquela porta sem que os ocupantes do quarto o
percebessem. Conversavam ainda, e agora podia-se ouvir claramente o que
diziam.
- Voc h de convir que meu plano  brilhante! - dizia Esm, em tom alto
e despreocupado, contente at.
- Tenho medo que algum descubra que Yvonne est viva - replicou o conde.
- Voc no a v h anos, e sei muito bem que na poca o conde Andr de
Sauzan nem existia!
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O conde riu.
Agora foi a sua vez de mudar de nome. Poderemos lanar mo desse
artifcio sempre que for necessrio - emendou Esm, com um risinho
maldoso.
- Ainda assim, no quero meter-me em encrencas.
- Dessa vez, se isso por acaso acontecer, voc ter dinheiro suficiente
para livrar-se de todas elas.
Seguiu-se um breve silncio, que Esm interrompeu:
- Eu estarei com voc, meu bem. Tenho certeza de que seremos muito
felizes, como sempre fomos.
- Tem certeza, Esm, que no h outro meio de conseguirmos o dinheiro
dela?
- Sim, tenho. A no ser que esperemos at que ela faa vinte e um anos.
- Oh, lamento dizer, mas no posso esperar tanto tempo
- atalhou o conde, rindo. - Como sempre, j estou com os meus ltimos
francos no bolso. Quando voc me encontrou, hoje  noite, eu j estava
pensando como fazer para conseguir um bom prato de comida, sem ter de
pagar por ele,  claro!
- Pois esquea o seu prato de comida. Estou lhe oferencendo um
caldeiro, mas de puro ouro! Poderemos viver confortavelmente pelo resto
de nossos dias! Novamente fez-se uma pausa, at que o conde dissesse:
- Muito bem, ento. No me resta outra alternativa, seno concordar. Mas
desde j lhe aviso que no vou me casar em uma igreja catlica. No tenho
a menor inteno de ser excomungado, caso alguma coisa venha  tona!
- Deixe comigo, que eu me entendo com alguma igreja Protestante, onde o
casamento no acontecer de verdade para voc.
- Como voc  inteligente, ma chre.
- Que bom que voc acha isso. Oh, Andr, beije-me! Nem Posso lhe dizer
como  bom estarmos juntos outra vez!
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Um completo nojo pelo que estavam prestes a fazer des pertou Daniela do
estupor que a mantivera como que hipnotizada enquanto ouvia aquela
conversa. E para evitar um mal maior, caso fosse descoberta ali,
atravessou silenciosamentte a sala, em direo ao seu quarto.
Somente ao ver-se na frgil proteo de sua prpria cama, com as cobertas
puxadas at o queixo, foi que Daniela conseguiu refletir sobre o que
acidentalmente descobrira.
Era inconcebvel para ela acreditar que alguma pessoa seria capaz de
descer to baixo, e comportar-se de forma to abominvel, como o estavam
fazendo Esm e seu amante.
"Eu vou denunci-la! vou contar ao mundo todo quem  essa mulher!",
Daniela pensou, exaltada.
Mas bem no fundo do corao, onde crescia a cada momento uma enorme
sensao de pavor, Daniela sabia que, ms mo vencida a dificuldade de
encontrar algum para ouvi-la, ningum jamais acreditaria em uma histria
to fantstica quanto a sua.
Tampouco adiantaria negar-se a unir-se quele homem; Esm no pensaria
duas vezes para drog-la e assim garantir a realizao de mais aquele
casamento.
Deitada em sua cama, Daniela chegou a pensar se no teria entendido mal o
que ouvira. Mas sabia que no era esse o caso.
A menos que encontrasse uma forma de impedi-lo, seria levada a uma igreja
protestante e a fariam casar-se com o amante de sua madrasta!
- O que  que eu fao? Oh, meu Deus, quem poder me ajudar?
com o passar das horas, porm, e depois de muitas oraes, Daniela sentiu
em seu corao que, por mais difcil que pudesse lhe parecer, um milagre
a salvaria daquela situao desesperadora.
No dia seguinte, exatamente ao meio-dia, o conde chegou
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e subiu  sute. Esm ainda no se levantara, mas Maria apressou-se a
servir-lhe champanhe, pat efoie gras e caviar.
Olhando-o mais de perto e  luz do dia, Daniela concluiu que seu pai
jamais teria confiado em um tipo daqueles, e tampouco sua me teria
gostado de v-lo junto de sua filha.
Havia algo naquele homem que a fazia estremecer.
O conde no era to jovem quanto lhe parecera na noite anterior. com
certeza j passara dos quarenta anos de idade.
Apesar dos gestos delicados e da fala gentil, seus olhos o traam,
enquanto se voltavam para a mulher que lhe garantiria uma vasta fortuna,
para ele gastar com sua amante.
Por sorte, Esm entrou na sala nesse instante, toda sorridente, e j foi
logo dizendo:
- Estive pensando que hoje deveramos ir s corridas de cavalos.
- Parece ento que adivinhei os seus desejos - replicou o conde. - Estou
certo de que mademoiselle gostar muito de ver alguns dos mais belos
cavalos de toda a Europa.
- Oh, conde, voc est to formal hoje - interrompeuo Esm,
maliciosamente. - Pode cham-la de Daniela. Quero que vocs sejam amigos.
Afinal, so as pessoas que mais amo neste mundo.
- Ser uma honra para mim - disse o conde, voltando-se para Daniela. -
Voc tem um nome muito bonito.
Daniela no respondeu, revoltada contra aquele homem que lhe dirigia a
palavra como se tivesse algum interesse nela enquanto pessoa, e no
apenas como herdeira de muito dinheiro.
Depois do lauto almoo, foram s corridas.
Fosse em outra ocasio, Daniela teria se deixado realmente cativar por
aqueles animais que, como dissera o conde, eram os melhores da Europa.
O pblico que comparecia s corridas no era menos impressionante.
Os proprietrios dos animais, vindos de Paris e de todos
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os pases adjacentes, eram na sua maioria grandes aristocratas. As damas,
por sua vez, usavam vestidos que eram verdadeiros tributos aos
costureiros franceses.
Apesar de preocupada e com medo, Daniela no pde deixar de olhar  sua
volta, para o que lhe parecia mais ser um conto de fadas que a realidade.
Foi ento que ela viu, vinda da tribuna para ver os cavalos desfilando
antes da prxima corrida, uma mulher vestida com muito maior luxo que as
demais. Ela no era exatamente bonita, mas nem por isso seu rosto era
menos fascinante.
Alguma coisa a tornava diferente das outras mulheres, que a olhavam com
indisfarvel inveja.
Daniela ouviu-a dizer:
- Aposto dez mil libras como voc no  capaz de vencer o cavalo do
duque!
Ela falara em ingls, e sua voz, embora alegre e jovial, era tambm
bastante comum, na opinio de Daniela. O cavalheiro que a acompanhava
respondeu:
- Combinado! E se voc perder, Cora, espero que salde sua dvida!
Foi a voz profunda que proferiu tais palavras que chamou a ateno de
Daniela. E ela ento viu que tratava-se de um homem muito bonito.
Talvez fosse a forma como aquele homem falara, ou o seu ingls perfeito
revelando-lhe a procedncia, mas o fato  que, enquanto ele passava  sua
frente, Daniela teve a ntida sensao de que seu pai estava por perto,
olhando por ela e protegendo-a.
Mais tarde, quando o cavalo daquele senhor venceu a corrida, por uma
cabea de diferena, seu nome foi anunciado no alto-falante.
Daniela tambm ficou sabendo, pela voz spera e despeitada de Esm, que a
mulher que o acompanhava era Cora Pearl.
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Como essa mulherzinha consegue fazer tanto sucesso  que eu no sei! -
dissera Esm, com indisfarvel inveja. Ma minha opinio, ela deve usar
magia negra para atrair tantos homens!
- No h dvidas de que todos ficam como que hipnotizados quando a vem -
concordou o conde. - Mas na verdade, creio que eles se sentem atrados
por sua extravagncia. Certa vez, dizem que ela desafiou seus convidados,
apostando com eles que seria capaz de servir-lhes um prato que no
ousariam trinchar.
- No consigo imaginar o que possa ser - intrometeuse Esm, depois de
pensar um pouco.
- Muito simples - replicou o conde. - Ela fez-se servir em uma salva
enorme, de prata, carregada por quatro homens! Estava completamente nua,
exceto por alguns poucos punhados de salsa, estrategicamente
distribudos!
Esm no riu. Em vez disso, perguntou-se apenas, placidamente:
- Por que nunca pensei nisso antes?
Daniela desviou o rosto. Como podia a ex-esposa de seu pai pensar em
fazer algo to degradante, to imoral?
Afinal voltaram para o hotel, o conde a acompanh-las.
Deitada em sua cama, no era nele que Daniela pensava naquela noite, mas
sim no marqus de Crowle, que no Lhe saa da cabea.
Muito vagamente, lembrava-se de ter ouvido esse nome Quando ainda estava
na Inglaterra. Costumava ir s corridas acompanhando seu pai, que as
adorava. com certeza, os cavalos do marqus haviam corrido em algum
grande prmio.
Depois de descansarem um pouco, desceram para jantar no cassino. Pela
primeira vez desde que ali chegara Daniela ansiava por chegar ao salo de
jogos, pois se o marqus estivesse l, talvez tivesse uma chance de
falar-lhe. Quem sabe ele se lembraria de lorde Seabrooke, e resolvesse
ajud-la?
53
Apegando-se firmemente a essa esperana, Daniela acompanhou sua madrasta
e o conde ao salo de jogos, depois do jantar.
- vou jogar um pouco, enquanto voc toma conta de Daniela - avisou Esm
ao conde, assim que chegaram junto  mesa da roleta. - Mais tarde ns
revezamos.
- Ser um prazer! - respondeu o conde, todo sorridente. Ele ficou em p
atrs da cadeira de Esm, olhando-a colocar suas fichas sobre os nmeros
que ia escolhendo ao acaso.
Enquanto os dois se entretinham com o jogo, Daniela varria o salo com o
olhar. Depois de algum tempo, quando j pensava em desanimar, seu corao
deu um salto ao ver o marqus levantando-se de uma mesa. Ele trocou o que
a Daniela pareceu ser uma quantidade enorme de fichas, e saiu do cassino,
em direo ao jardim.
Mais que depressa, ela voltou-se para o conde, e perguntou:
- Ser que posso beber alguma coisa? Est muito quente aqui dentro.
- Tem razo - disse ele. - Creio que Esm gostar de tomar algo tambm. -
E inclinando-se, perguntou-lhe: Que tal uma taa de champanhe?
- tima ideia! - Daniela o incentivou.
O conde olhou  sua volta a procura de um garom. Localizando um no fundo
do salo, imediatamente foi ao seu encalo.
Daniela percebeu que aquela era sua grande chance.
Rapidamente, como um animal acuado pelo caador, acotovelou-se contra a
multido que assistia aos jogadores ao redor da roleta, abrindo caminho
em direo s altas portas que se abriam para o jardim.
- Eles j devem estar desesperados  minha procura ela agora dizia ao
marqus -, e vo ficar furiosos se me descobrirem aqui com o senhor.
Como ele no se pronunciasse, Daniela insistiu, com a voz
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dbil:
O senhor entendeu realmente o quanto estou amedrontada?
- Claro que sim - ele replicou. - Estou pensando em como poderia ajud-la
a escapar dessa situao.
- Vai realmente ajudar-me?
Daniela espalmara as mos uma contra a outra, e a luz que agora brilhava
em seus olhos parecia desafiar as prprias estrelas.
- No vai ser fcil - emendou o marqus, cautelosamente -, mas no posso
permitir que a filha de um lorde ingls seja tratada de forma to
abominvel!
- Oh, como ansiei por ouvir algum dizendo isso! - Daniela desabafou.
- Voc tem que entender, no entanto, que se eu acusar sua madrasta e esse
tal conde por um crime que ainda no cometeram, eles o negaro,
evidentemente, e ser apenas sua palavra contra a deles.
- Mas... eu no posso me casar com aquele homem! Suponha que a esposa
dele no esteja viva e esse casamento acabe acontecendo dentro da lei?
Jamais permitirei que ele me toque!
- No, claro que no - assegurou-lhe o marqus, vendo-a to exaltada. -
Ainda no sei exatamente o que fazer, mas tenho certeza de que no
demorarei a encontrar uma soluo.
Enquanto falava, lembrou-se que pretendia deixar BadenBaden dali a dois
dias, mas suspeitava agora que seria obrigado a ficar por mais tempo. Uma
coisa era certa: quando Partisse, levaria Daniela consigo.
Incomodava-o o fato de no saber como agir. Principalmente porque o fator
tempo era importante naquele caso.
Se Daniela estivesse certa sobre Esm Blanc ter realmente Se aconselhado
com advogados, talvez sua afirmao de que detinha a tutela legal sobre a
enteada no fosse totalmente infundada. Dessa forma, ela poderia dispor
sobre o casamento
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de Daniela mesmo sem o seu consentimento, como bem li aprouvesse.
Enquanto pensava no assunto, o marqus sabia que Dniela o observava,
traduzindo em seu olhar toda a ansiedade que lhe ia por dentro.
E mais uma vez ele constatou o quanto ela era bela.
Nunca se interessara por mulheres muito jovens, mas se nha que
representar o papel de cavalheiro encantado que salv a mocinha da torre
do castelo, tanto melhor se ela fose jovem e adorvel, ao invs de velha
e feia.
- Tenho a impresso - Daniela estava dizendo, em sua voz suave e musical
- que foi papai que nos aproximou neste momento de to grande desespero
para mim, quando eu j comeava a pensar que a nica forma de me ver
livre de tal horror seria... afogar-me!
- Voc no deve pensar dessa forma - repreendeu-a o marqus. - Estou
certo de que seu pai gostaria de v-la mostrando-se corajosa, e no
pensando em uma sada to covarde como o suicdio.
- Eu sei - Daniela reconheceu -, mas no  s o problema de o conde ser
um homem horrvel e maldoso. O pior  que ele  o amante de minha
madrasta!
O marqus j imaginara ser esse o grande problema. Sendo ela to jovem, e
tendo passado grande parte da vida dentro de um convento, chocava-a
profundamente a ideia de sua madrasta ter um amante, como j a perturbara
ver Esm hospedada na mesma casa que seu pai, sendo ele vivo.
H muito tempo ele no encontrava algum to inocente e imaculada.
De repente ocorreu-lhe que seria um verdadeiro desastre Daniela
encontrar-se com algum como Cora Pearl. Ou mesmo perceber a total
depravao em que viviam as grandes cortess de Paris.
Em voz alta, ele disse:
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O que temos de fazer, Daniela,  agir com muita inteligncia nesta
questo. O que quer que acontea, sua madrasta no deve saber que estou
tentando ajud-la.
Ele fez uma pausa antes de prosseguir:
- Ao mesmo tempo, se os acontecimentos se acelerarem, ou se algo de
inesperado acontecer e voc precisar entrar em contato comigo, tente
mandar uma mensagem  Villa d'Horizon.
-  onde o senhor est hospedado?
- Sim. Quando decidi trazer meus cavalos a Baden-Baden, um amigo
emprestou-me sua Villa, desocupada temporariamente, uma vez que ele
preferiu passar a temporada em Monte Carlo.
Villa d'Horizon, repetiu Daniela para si mesma, para no esquecer.
Sabia que no seria fcil encontrar uma forma de comunicar-se com o
marqus. Ao mesmo tempo, era reconfortante ter em mente onde o seu
possvel salvador estaria.
- Talvez... - o marqus comeou.
Mas de repente ouviram uma voz feminina nas proximidades, que dizia:
- Ela tem que estar por aqui, em algum lugar!
- Se for sua madrasta - ele mais que depressa orientou Daniela -, diga
que voc veio para c porque achou que ia desmaiar, devido ao forte calor
dentro do cassino.
E com a rapidez de um atleta, o marqus levantou-se do banco e
desapareceu dentro dos arbustos s suas costas.
Afinal Esm Blanc, acompanhada pelo conde, surgiu na curva do caminho que
contornava o gramado, olhando para os lados, nervosa.
Quando se deparou com Daniela, imediatamente exclamou, vitoriosa:
- Ali est ela!
E percorrendo rapidamente o pequeno espao que as separava,
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Esm foi logo dizendo, daquele seu jeito rude:
- Onde voc esteve? O que pretendia afinal, vindo para c sozinha e
pregando-nos este susto?
- S-sinto muito, madrasta - Daniela desculpou-se -, mas de repente tive a
sensao que ia desmaiar e vim para o jardim,  procura de um pouco de ar
fresco.
- Eu disse que ela no pretendia fazer nada de errado acrescentou o
conde, exibindo aquele seu sorriso falso outra vez.
- Mesmo assim, isso no poderia ter acontecido - respondeu Esm. - Eu lhe
avisei para que no se afastasse dela!
- Bem, aqui est sua enteada, s e salva! - replicou o conde. - Sugiro
que voltemos todos ao cassino, e voc, Daniela, tome sua taa de
champanhe.
- Sim, claro - Daniela concordou. - Se  isto que querem que eu faa...
- No futuro,  bom no me desobedecer mais - Esm ainda insistiu, com
raiva na voz. - Voc me deu um susto, e tive que abandonar o jogo
justamente quando a sorte estava virando a meu favor!
- Sinto muito.
- Espero que sinta mesmo! - Esm mais uma vez vociferou.
Ento, uma nova ideia a fez mudar subitamente de atitude, e ela
acrescentou:
- Voc aborreceu o conde, fugindo dessa maneira, no foi, Andr?
- Para dizer a verdade, fiquei bastante preocupado - concordou o conde. -
Uma pessoa to bela como voc poderia ter encontrado srios problemas
sozinha no jardim, com tantos homens estranhos andando por a.
Como Daniela nada respondesse, e achando que deveria atrair mais a
ateno sobre si mesmo, ele continuou:
- Se voc tivesse fugido com algum belo estrangeiro, eu
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teria morrido de cime!
Gostaria de ir para a cama agora - disse Daniela, como se no o tivesse
ouvido. - Estou com dor de cabea, creio que ainda devido ao calor.
- Mas francamente! Como pode ser to egosta? - Esm perguntou, irada. -
Voc sabe que Andr e eu queremos jogar no cassino. A maioria das moas
da sua idade adoraria estar aqui em Baden-Baden, no seu lugar.
Esm preparava-se para dizer muito mais, mas o conde interveio.
- Se Daniela est com dor de cabea, vamos lev-la para a sute. Depois,
se voc quiser voltar para o cassino, eu a acompanharei. Mas
sinceramente, Esm,  muito frustrante estar na frente de uma mesa de
jogos e no poder apostar um nquel sequer.
Assim dizendo, ele lanou um olhar rpido, mas significativo, para sua
amante.
Daniela sabia que era pouco provvel que sua madrasta lhe desse dinheiro
para gastar no jogo, antes que ele tivesse feito o que ela queria.
De qualquer forma, esse assunto a desagradava profundamente, e por isso
Daniela preferiu ir andando na frente.
J nem lhe importava que os dois falassem dela s suas costas. Em seu
corao agora s cabia o prazer de contar com o marqus para ajud-la.
Tinha certeza de que, por mais difcil que pudesse ser, ele encontraria
uma forma de salv-la.
Ao atravessar novamente o cassino em direo ao hotel, Daniela no viu a
multido ao redor das mesas de roleta e bacar, nem notou a beleza dos
sales e da luz ofuscante dos candelabros.
Todo o seu ser, j naquele momento, estava voltado para Deus, e
mentalmente ela repetia, vezes sem conta:
- Obrigada, Senhor... Obrigada por ter me permitido... encontr-lo.
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CAPTULO IV

O marqus teve de esperar um tempo considervel at que Daniela,
acompanhada pela madrasta e pelo conde, desaparecesse na direo do
cassino.
Mais uma vez ele conclua que nunca em toda sua vida ouvira uma histria
como aquela. E no entanto, estava convencido de que Daniela lhe contara a
mais absoluta verdade.
Como vrias outras cortess de Paris, Esm Blanc era capaz de fazer
qualquer coisa para atingir seus objetivos. No era portanto difcil de
entender por que a ideia de tornar-se esposa de um nobre ingls fora to
irresistvel para ela. Ainda assim, era incrvel pensar que, tendo
conseguido o que queria, tivesse permitido que lorde Seabrooke se
envolvesse em um duelo.
Talvez tudo no passasse de um acaso, mas considerandose quem era Esm
Blanc, era bem provvel que ela realmente tivesse conspirado para ver seu
marido em perigo.
Nada disso porm respondia a sua principal inquietao no momento: o que
fazer para ajudar Daniela?
No tinha a menor inteno de envolver-se em um escndalo. Mas nem por
isso Esm deixaria de amedront-lo de todas as formas possveis.
- O que diabos posso fazer? - perguntou-se o marqus, enquanto lentamente
caminhava de volta para o cassino.
Se fosse uma pessoa realmente sensata, partiria de BadenBaden
imediatamente, deixando para trs todos os problemas que afinal no eram
seus, e voltaria sozinho para a Inglaterra.
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Mas a despeito de todo o seu aparente cinismo, sentira-se comovido ante o
terror que detectara na voz de Daniela. E o que mais o sensibilizara era
o fato de ela ser jovem, inocente das coisas do mundo, e estava
completamente sozinha.
O marqus entrou no cassino esperando que Daniela j no estivesse mais
l. Foi com alvio que no viu sinal dela, nem de sua madrasta, nem mesmo
do falso conde.
Mas l estava Cora Pearl, bebendo champanhe sem parar, com trs homens 
sua volta, cortejando-a. Estava mais bela que nunca naquela noite, em um
vestido cujo decote era escandalosamente baixo, ornamentado com desenhos
de aves do paraso. Devia ter lhe custado mais que o salrio de um ano
inteiro de qualquer empregado do cassino.
O colar que lhe enfeitava o colo, bem como os brincos, braceletes e a lua
crescente presa no cabelo no eram menos espetaculares.
Ao v-lo aproximar-se, um dos conhecidos do marqus, que rodeava Cora,
exclamou:
- Ol, Crowle! Sentimos sua falta. Onde voc andou?
- Est quente demais aqui dentro - respondeu o marqus, brevemente. - Fui
at o jardim para respirar um pouco de ar puro.
E assim dizendo, afastou-se  procura de uma taa de champanhe, para no
ser obrigado a entrar em maiores detalhes.
Uma hora mais tarde ele aproximou-se de Cora novamente e disse:
- Gostaria de lev-la para casa agora. Estou cansado, e amanh ser outro
dia agitado nas pistas de corrida.
Cora olhou-o com um bvio convite escrito nos olhos, sem ter certeza
porm se ele a entendera ou no.
Enquanto se afastavam do cassino, dentro de uma confortvel carruagem
puxada por dois cavalos, o marqus perguntou:
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- Voc conhece uma mulher chamada Esm Blanc? Cora imediatamente franziu
a testa, antes de responder;
-  uma mulherzinha -toa, ambiciosa ao extremo, capaz de tudo para
conseguir o que quer!
O marqus riu.
Por mais sucesso que fizesse entre as pessoas do mais alto nvel, Cora
nunca perdera aquele jeito vulgar de expressarse, tpico dos bairros mais
pobres de Londres.
- Por que esse interesse? - ela quis saber.
- Parece que ela se casou com um lorde ingls, pelo que ouvi dizer - o
marqus replicou, escolhendo cuidadosamente as palavras.
- No  bem essa histria que me contaram. Esm casouse com ele, mas logo
em seguida deu um jeito para que o assassinassem! - foi a resposta de
Cora. - Tenho de admitir, porm, que ela  pouco inteligente. Seu maior
desejo  ter o mesmo estilo de vida que eu, mas no sabe como consegui-
lo.
- No  difcil entender por qu - disse o marqus, sarcasticamente. -
Voc  nica, Cora, como bem sabe.
- Mas garanto-lhe que no costumo entender como um elogio o fato de ser
invejada por uma mulher como Esm Blanc! Que, por sinal, est se fazendo
passar por uma tal de condessa de Bellevue. Se algum dia existiu um conde
com um ttulo desses, eu juro que como meu chapu!
O marqus riu da espontaneidade de Cora, e pediu:
- Agora conte-me sobre aquele homem com quem ela esteve a noite toda, o
tal conde Andr de Sauzan.
- Um verme! - Cora exclamou. - Um chantagista, a quem jamais permitirei
que volte a pr os ps nem sequer na porta da minha casa!
- O que ele fez contra voc? - perguntou o marqus, surpreso com tamanha
fria.
- Certa vez ele tentou roubar algo que me pertencia, mas
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eu o apanhei em flagrante, e mandei meus criados atir-lo pela janela.
Infelizmente eles me obedeceram  risca, e estando a janela em questo
fechada, o pobre conde teve de passar vrias semanas hospitalizado!
Dessa vez o marqus no conteve a gargalhada, ao imaginar a cena.
- No havia uma jovem com eles esta noite? - Cora peguntou, como que
lembrando-se de algo a que mal dera ateno.
-  verdade.
- Pode apostar como vo vend-la pela melhor oferta! S espero que no
seja voc o comprador...
- vou tentar no me esquecer dessa recomendao brincou o marqus,
sorrindo.
A carruagem parou em frente  Villa Mimosa, presente de um dos mais
ardorosos admiradores de Cora.
A Villa j conhecera em seu interior os mais diferentes estilos de
decorao, obedecendo s mais diferentes tendncias da moda. No entanto,
o quarto de dormir, especificamente, sempre divertira muito o marqus,
cada vez que ele ali entrava. Paredes, cortinas, carpete e flores - tudo
era branco ali dentro. A nica exceo era a cama, enorme, colocada sobre
um pedestal, dois degraus acima do cho. Era toda feita de bano,
entalhada na forma de um barco fantstico, com a figura de um homem nu
segurando o leme.
Os lenis, travesseiros e cobertores eram todos pretos, inclusive a
colcha que a cobria, de pele de arminho preta, de valor incalculvel.
Ningum mais poderia ter pensado em um cenrio to fantstico e
instigante para suas noites de amor, seno Cora Pearl. Deitada sobre a
cama preta, seu corpo perfeito tinha a aparncia de uma prola
preciosssima dentro de um estojo de veludo.
Respondendo ao convite que vira nos olhos de Cora, o marqus
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passou a noite ali, para melhor admirar essa prola.
Os primeiros raios da aurora surgindo no horizonte encontraram o
marqus a caminho da Villa d'Horizon.
Ainda que exausto da noite de amor, antes de deitar-se na confortvel cama
que o esperava ele lavou-se do perfume suave e sedutor que ainda
impregnava seu corpo do contato com Cora.
Enquanto o fazia, o marqus decidiu que afinal chegar a hora de voltar
para a Inglaterra.
Nem mesmo o cansao fez Daniela dormir naquela noite. Seu pensamento ainda
estava no marqus, e na sua pr messa de ajud-la, to difcil de
cumprir.
Ao voltarem para o hotel, Daniela subira direto para seu quarto, certa de
que sua madrasta preferiria ficar a ss con o conde. Mas ainda assim Esm
a seguira, para novamenti dizer o quanto se aborrecera por ela ter sado
do salo de jogos sozinha.
- Ser que d para enfiar nessa sua estpida cabecinha que voc tem de me
obedecer? - ela gritou. - Se continuar comportando-se dessa forma, vou
ser obrigada a tranc-la no quarto, toda vez que eu sair.
Daniela estava prestes a dizer que no se importaria com isso, pois seria
melhor do que ter de suportar-lhe a compa nhia e a do conde, mas achou
que se o fizesse provocaria uma cena ainda maior.
- Sinto muito por t-la aborrecido, madrasta - disse ela afinal, pensando
que assim ficaria livre de Esm mais de pressa.
- Muito bem. Para demonstrar seu arrependimento, assine mais um cheque
para mim - Esm replicou. - Estou precisando de dinheiro. Talvez voc
ainda no tenha percebi do, mas  impossvel viver sem ele.
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Mas eu lhe dei mil libras quando chegamos! - Daniela protestou. - J
gastei quase tudo que me  permitido usufruir em um ano s neste ms!
Voc sabe to bem quanto eu que os seus advogados
lhe daro qualquer coisa que voc pedir.
Mesmo angustiada ante a concluso de que logo a fortuna de seu pai
estaria reduzida a zero se continuassem a gast-la em extravagncias
inteis, Daniela assinou o cheque e passou-o a sua madrasta que, depois de
examin-lo cuidadosamente, para certificar-se de que no havia erros,
afastou-se at a porta.
- Agora, para a cama - Esm ordenou. - Espero que se comporte melhor
amanh. Voc precisa me obedecer, entendeu? Em tudo que eu lhe disser.
- Est bem - Daniela murmurou.
Esm saiu do quarto, dando lugar a Maria, que ajudou Daniela a despir-se.
Em seguida, levou todas as roupas que havia ali para o seu prprio
quarto, deixando apenas a camisola dentro do guarda-roupa vazio.
Agora deitada na cama, novamente a ss, Daniela tentava encontrar uma
forma que lhe permitisse entrar em contato com o marqus se de repente
lhe mandassem ir para uma igreja protestante.
-  Por favor, papai, ajude-me mais uma vez - ela rezou.
- Tenho certeza de que foi atravs do senhor que consegui chegar at ele
esta noite, mas pode no ser to fcil da prxima vez.
Finalmente ela adormeceu, e sonhou que era criana de novo.
Na manh seguinte, Maria entrou no quarto e foi logo abrindo as cortinas.
Sem conseguir abrir os olhos devido  sbita claridade, a voz embargada
pelo sono, Daniela perguntou:
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- Que horas so, Maria? Ainda  cedo, no?
- So dez horas - Maria respondeu, de mau humor como sempre. - Madame
mandou dizer para voc se aprontar para sair ao meio-dia. vou preparar o
seu banho.
Daniela conteve a respirao. Aquela repentina mudana na rotina diria
significava perigo, com certeza. Mas seria possvel que o casamento j
estivesse arranjado para aquele dia?
De repente o pnico tomou conta dela. Por um momento a ideia de fugir
porta afora lhe pareceu a nica sada. Correria escadas abaixo e sumiria
dali enquanto tinha alguma chance.
Mas a razo falou mais alto, lembrando-a que no chegaria sequer 
portaria do hotel, vestida apenas de camisola.
Enquanto isso, do lado de fora do quarto, Maria falava sem parar com a
camareira do hotel, cuidando da preparao do banho de Daniela. Afinal
entraram duas criadas no quarto, trazendo uma tina que depositaram sobre
o tapete. Em seguida, ao lado da tina colocaram uma cadeira, e sobre ela,
a toalha e o sabonete.
As criadas se retiraram, com certeza para esperar no corredor do hotel
pelos homens que trariam a gua quente.
Foi ento que Daniela teve uma ideia.
Aproveitando a ausncia de Maria, ela saltou da cama e correu at a
escrivaninha, onde havia um bloco de papis com o timbre do hotel, e um
bom sortimento de envelopes.
Rapidamente, ela rabiscou essas breves linhas:
Creio que serei obrigada a casar-me ainda hoje, ao meio dia. Por favor
salve-me!
Daniela
Colocando o bilhete dentro de um envelope, endereou-o ao marqus de
Crowle, Villa d'Horizon. Em seguida Daniela foi at a penteadeira e,
abrindo uma caixa de jias, tiro
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um pequeno broche de diamantes e prolas, que pertena  sua me.
Embora lhe fosse doloroso desfazer-se de algo de tanto valor sentimental,
sem ter dinheiro consigo, Daniela reconhecia que no momento esse
sacrifcio era necessrio.
Voltou ento para a cama, escondendo o envelope e o broche sob o lenol,
enquanto observava as criadas que voltavam, trazendo a gua para o seu
banho.
Uma delas, a mais jovem e bonita, saiu e voltou trazendo um pouco de gua
fria, para que Daniela no se queimasse.
Maria ainda conversava com os criados do lado de fora, que perguntavam se
seria necessrio mais gua para o banho da mademoiselle inglesa. com
certeza tambm eles achavam que o hbito francs de lavar-se
completamente em uma simples pia e banheiro era muito mais razovel.
A porta apenas entreaberta foi um incentivo para Daniela que,
esgueirando-se da cama, aproximou-se da jovem criada que despejava a gua
dentro da tina lentamente, de forma a no deix-la fria demais.
Falando em voz bem baixa, para que ningum mais pudesse ouvi-la, Daniela
disse:
- Se voc levar este bilhete para o endereo a anotado eu lhe darei este
broche.  uma jia muito valiosa, veja.
Os olhos da criada voltaram-se para baixo, atnitos, e ela at parou de
derramar a gua.
- Por favor, ajude-me... por favor! - implorou Daniela.
-  muito importante... eu tenho certeza, esse cavalheiro, se voc pedir,
tambm lhe dar um bom dinheiro.
- Devo levar o bilhete esta noite, mademoiselle?
- No! - Daniela exclamou, mais que depressa. - Agora, imediatamente!
Tinha medo que Maria voltasse. Por isso, enquanto falava foi enfiando o
envelope e o broche no bolso do uniforme da criada.
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- Depressa! Por favor, depressa! - implorou mais uma  vez. - Isto
significa tudo no mundo para mim!
Nesse momento Maria voltou para o quarto. Daniela no mesmo instante
inclinou-se para a frente, pondo a mo na gua da tina como se a
estivesse testando.
- Creio que a temperatura j est boa agora - observou com toda a
naturalidade.
A jovem criada ento despediu-se, dizendo:
- Precisando de mais alguma coisa, mademoiselle, estarei s suas ordens.
E caminhou em direo  porta. Antes de fech-la, porm, ela olhou para
trs, para a jovem inglesa que lhe dera aquele lindo broche.
Ainda que no de todo confiante, Daniela interpretou esse gesto como um
sinal de que ela faria o que lhe pedira.
Daniela demorou-se o mais que pde no banho, e ainda no estava
completamente vestida quando Esm entrou no quarto.
- Voc ainda no est pronta? - perguntou, asperamente.
- Quero que Maria lhe faa um penteado, e se voc demorar muito, no vai
dar tempo.
- Sinto muito, madrasta, mas no sabia que devia me apressar.
- Temos um importante compromisso para exatamente o meio-dia - Esm
informou-a.
- Compromisso? - Daniela repetiu, fingindo surpresa.
- Posso saber do que se trata?
- No tenho tempo para perguntas! Maria, venha j at meu quarto, pegar o
vestido que Daniela ir usar. E tranque a porta ao sair.
Maria prontamente obedeceu, deixando Daniela ocupada em aprontar-se,
faltando apenas o vestido e o penteado que a criada faria.
Olhando-se no espelho, era como se no visse sua imagem
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ali refletida, mas apenas a dos seus pais, a quem rezava ardentemente
pedindo ajuda.
Ento demorou muito e Maria voltou ao quarto, trazendo nas mos um lindo
vestido branco, mais apropriado no entanto para a noite que para um
compromisso ao meio-dia.
- O que  isto? - Daniela perguntou, afastando-se do espelho.
- O que acha que ? - Maria retrucou, antiptica. Voc teve sorte. No
sei como madame conseguiu encontrar um vestido de casamento aqui em
Baden-Baden!
- Vestido de casamento? - Daniela repetiu.
- Voc vai se casar - disse Maria -, e se quer saber minha opinio, no
entendo o porqu de tanta pressa!
- Casar! - exclamou Daniela. - Recuso-me a faz-lo!
Nesse momento, trajando um dos vestidos mais extravagantes que possua,
alm de um chapu coberto de penas, sua madrasta entrou no quarto, a
tempo de ainda ouvir-lhe as ltimas palavras.
- Agora j  tarde demais para voc fazer cenas! - ela esbravejou, com
sua costumeira brutalidade. - E nem pense em gritar por socorro, ou eu
lhe darei algo para beber que a impedir de dizer uma palavra sequer!
- Est querendo dizer que vai me drogar, como fez com papai, no ? -
Daniela retrucou.
Pensou que sua madrasta se surpreenderia, mas em vez disso Esm riu.
-  isto mesmo! Seu pai no viu nada acontecer, e s foi recobrar a
conscincia no dia seguinte. Assim, voc  quem escolhe. Ou entra na
igreja por suas prprias pernas, para casar-se com Andr de uma maneira
digna, ou a drogamos e realizamos o casamento de qualquer maneira!
Daniela sabia que Esm poderia muito bem subornar um proco, para que ele
realizasse a cerimnia sem que a noiva estivesse plenamente consciente.
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- Toda moa quer lembrar-se do dia do casamento - Isme continuava, em tom
jocoso. - Se voc for sensata, vai  poder lembrar-se do seu tambm. Ao
contrrio do seu pi que no tinha a menor ideia do que lhe acontecera,
ao descobrir-se na cama comigo!
Aquilo foi demais para Daniela. Recusando-se a acreditar que pudesse
existir uma pessoa to m, fechou os olhos, como que para diminuir o
aperto em seu corao.
- E ento, o que voc prefere? - Esm voltou a insistir;
- Estou lhe dando a oportunidade de escolher, mas no se esquea que,
seja qual for sua opo, o fim ser o mesmo.
Sabendo que, se houvesse alguma salvao, viria do mar qus, e que talvez
s atrapalhasse se no estivesse lcida quan do ele aparecesse, Daniela
respondeu:
- Eu me casarei.
- timo! Agora vista-se, que o conde est esperando. E Esm retirou-se
com um adejar do vestido, deixando Maria
incumbida de ajudar sua enteada no que fosse preciso. Alm do vestido,
Daniela teria de usar um vu e uma tiara
de flores de laranjeira na cabea. Olhando-se no espelho, ela se recusava
a acreditar que estava
 prestes a casar-se, contra sua vontade, com o amante de
sua madrasta. Nem em sonhos seria capaz de imaginar situao
mais humilhante.
Nada mais lhe restava fazer, no entanto, seno rezar para que a camareira
tivesse feito o que lhe pedira, e que a essa altura o marqus j tivesse
recebido a sua mensagem.
Na Villa d'Horizon o marqus levantara-se mais tarde que de costume.
Afinal, fora deitar-se s seis horas da manh, e o sono ainda tardara a
chegar, impedido pela constante preocupao com o futuro de Daniela.
Chegara a pensar em pregar um susto no tal conde, ou a suborn-lo para
que deixasse Baden-Baden imediatamente.
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Dessa forma, Esm levaria algum tempo at encontrar outro noivo para sua
enteada. Enquanto isso, entraria em contato com a famlia de Daniela,
podendo afinal afastar-se daquele caso com a conscincia tranquila.
Pensando ter encontrado uma soluo razovel para aquele dilema, o
marqus por fim adormecera.
Em geral, antes do caf da manh, costumava cavalgar um pouco pela
Floresta Negra, um dos lugares mais belos de toda a Europa na opinio do
marqus. Naquele dia, porm, j era tarde para esse passeio.
Assim, saboreando agora a excelente refeio matinal que lhe fora
servida, o sol que ia alto no horizonte, h muito dissipara as ltimas
sombras da noite. O dia estava to bonito que o marqus j comeava a
duvidar que a situao de Daniela fosse realmente to ruim como ela a
descrevera.
Talvez sua completa ausncia de malcia a tivesse levado a exageros.
Assim pensando, o marqus ordenou ao seu valete, Bowles, que fizesse as
malas, porque partiriam para a Inglaterra provavelmente na manh
seguinte.
Depois do caf da manh, o marqus recolheu-se  biblioteca da villa para
ler os jornais ingleses que seu valete lhe conseguira. E estava entretido
na leitura quando um dos criados da casa surgiu  porta, para dizer:
- H uma jovem querendo v-lo, monsieur. Diz ter uma mensagem urgente
para o senhor do hotel Stephanie.
O marqus imediatamente se ps alerta.
- Faa-a entrar.
A criada foi introduzida na biblioteca, usando ainda a toca de l na
cabea e o uniforme do hotel.
- bom dia - o marqus cumprimentou-a, em alemo.
- Queria falar comigo?
- Sim, meu senhor. Uma jovem pediu-me para trazer-lhe este bilhete, e
disse que o senhor me pagaria por isso. Como
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era urgente, tomei a liberdade de alugar uma carruagem.
- Fez muito bem - tranquilizou-a o marqus.
E sem mais delongas pegou o bilhete de Daniela, abriu-o e leu.
Em seguida apanhou trs moedas de ouro do bolso e as deu  criada, que
quase perdeu a fala ao ver tanto dinheiro.
- Muito obrigada, meu senhor, muito obrigada! - ela afinal conseguiu
balbuciar, curvando-se humildemente ao mesmo tempo.
- Oua - disse o marqus, ignorando-lhe os agradecimentos. - Quero que
volte para o hotel e faa as malas de mademoiselle, o mais rpido que
puder.
- Tenho a impresso que as malas j esto prontas, senhor. Creio que ela
est de partida.
- Muito bem, ento. Mas certifique-se de que isto  verdade e providencie
para que toda a bagagem dela seja levada para o hall do hotel o quanto
antes, sem que ningum da sute que mademoiselle ocupa fique sabendo
disso.
Aps uma pausa, ele continuou:
- Se fizer exatamente como estou lhe dizendo, ser fartamente
recompensada por todo o seu trabalho. Entendeu?
- Sim senhor. E muito obrigada, novamente! - disse a moa, os olhos
faiscando de contentamento.
Mal ela sara da biblioteca, o marqus j mandava chamar Bowles para lhe
dar algumas ordens urgentes.
Assim que terminou de arrumar Daniela, Maria foi at a sala de estar
avisar Esm e o conde.
Enquanto isso, Daniela aproximou-se da janela e, olhando para o cu,
rezou para que o marqus conseguisse salv-la.
Sabia que haveria uma importante corrida de cavalos naquele dia, e com
certeza os animais do marqus concorreriam. Se a criada tivesse se
atrasado, o marqus j teria sado, e seria o fim de todas as esperanas
para Daniela.
72
- Por favor, meu Deus... me ajude...
Mas ela tinha a triste sensao de que suas preces voavam soltas pelo
cu, como pssaros, sem que ningum as ouvisse.
- Vamos embora, Daniela! - Esm foi logo esbravejando, ao entrar
subitamente no quarto de sua enteada. - O que est fazendo a parada?
Andr est esperando l em baixo, na carruagem. Vamos todos juntos para a
igreja.
Sem que ningum lhe dissesse, Daniela sabia que esse arranjo fazia parte
das precaues para evitar que ela fugisse.
Ainda naquele ltimo momento, ela achava que mais uma vez tinha de lutar
por sua liberdade.
- Madrasta - disse ela -, e se eu abrir mo de metade da minha fortuna,
em seu benefcio, e incondicionalmente? Eu poderia fazer-lhe companhia
sem ter de me casar com algum que no amo, e que, como bem sei, j
pertence...  senhora.
Tal sugesto lhe pareceu bastante razovel, mas estava disposta a
discutir com Esm um outro acordo.
Mas para seu desespero, Esm apenas soltou uma gargalhada.
- Por que aceitaria eu metade de um bolo - perguntou -, se posso com-lo
inteiro?
E sem esperar por uma resposta, continuou:
- Alm do mais, se voc no se casar com Andr, poder encontrar um outro
homem que no seja assim to generoso.
Seus olhos se estreitaram, e com a voz ainda mais estridente,
acrescentou:
- Eu s quero o que seu pai me prometeu. Ele me traiu ao fazer um
testamento que me priva do que tenho direito, sendo sua esposa.
De nada adiantaria Daniela protestar e tentar defender seu Pai, que na
verdade fora at bastante generoso com uma mulher desonesta como Esm,
que tudo fizera para apossar-se
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do dinheiro dele.
"Eu a odeio!", Daniela pensou.
Havia em seu peito uma violenta revolta contra aquela mulher, to m e
inescrupulosa.
- Vamos! - Esm ordenou, pondo fim quela discusso.
- Seu noivo est l embaixo, e o proco nos espera na igreja ao meio-dia
em ponto!
Ao sair do quarto, Daniela viu a criada mais velha atarefada com a
limpeza da sute, mas no havia o menor sinal da outra, a quem incumbira
de levar o bilhete  Villa d'Horizon. Naquele momento to aterrador, isso
bastou para enchla de esperanas de que o marqus fora avisado, e
certamente j se encontrava em vias de libert-la das mos daqueles dois
embusteiros.
Seguindo sua madrasta, Daniela desceu para o hall.
O gerente do hotel adiantou-se para curvar-se  sua frente e desejar-lhe
felicidades. Ela no respondeu, mas Esm alegremente agradeceu:
-  muita gentileza sua, monsieur. Espero que quando voltarmos, j esteja
pronto o nosso almoo especial de comemorao.
- Ser tudo como a senhora pediu, madame - respondeu o gerente.
A mesma carruagem que Esm usara para lev-los todas as noites ao cassino
as esperava em frente ao hotel.
As duas torres da pequena igreja protestante da cidade sobressaam-se em
meio  densa vegetao dos arredores. Assim, Daniela pode v-las muito
antes de ali chegarem.
Durante todo o percurso, tivera a esperana de ver o marqus pular 
frente da carruagem, fazendo-a parar para salvla. Mas isso no
aconteceu. Ao saltar em frente  igreja, Daniela reconheceu tristemente
que sua ltima esperana se fora.
Era prefervel morrer a casar-se com o conde. Pelo menos assim voltaria
para junto dos pais. Carregar o nome do conde
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pelo resto da vida, e saber que, por serem casados, teria de obedec-
lo, seria impossvel.
"Prefiro morrer!", pensava consigo mesma, enquanto subia os degraus da
igreja.
O conde ofereceu-lhe o brao e assim prosseguiram lentamente, pelo
corredor central, at chegarem ao altar, onde j os esperava um clrigo
em suas vestes brancas.
Mas Daniela nem mesmo conseguia enxerg-lo direito. Os olhos rasos
d'gua, o corao apertado, certa de que at mesmo Deus a abandonara,
privaram-na de quaisquer outros sentimentos.
Um rpido olhar em direo ao conde a fez sentir-se ainda pior, pois que,
ignorando-a por completo, ele trazia um largo sorriso nos lbios.
Obviamente estava mais que satisfeito em saber que dentro de poucos
minutos seria dono de uma vasta fortuna.
- Eu quero morrer! - murmurou Daniela em seu corao. Esm os seguira
logo atrs, como que para evitar qualquer
tentativa de fuga da noiva. Agora, em frente ao altar, ela adiantou-se e
se colocou ao lado do conde. O proco, um degrau acima, abriu seu livro
de oraes.
- Meus amados... - ele comeou, falando em ingls. Porm, quando ia
continuar, uma voz no fundo da igreja
ecoou bem alta:
- Parem este casamento! Daniela achou que estava sonhando.
O conde voltou a cabea para trs, instintivamente, para ver quem havia
falado.
A voz do proco esmoreceu, e Esm ficou atnita.
Caminhando pelo corredor central da igreja, seus passos soando alto no
enorme silncio que agora imperava ali dentro, surgia o marqus de
Crowle. Chegando junto ao altar onde todos estavam, na sua voz forte e
autoritria, ele declarou:
- Este casamento no pode ser levado adiante! O noivo
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 um homem casado, que no tem o direito de tomar para si outra esposa!
- Tem certeza do que est dizendo, senhor?... - comeou o proco.
Mas o conde o interrompeu, aos gritos:
- No  verdade! Minha primeira esposa est morta!
- Isto o senhor ter ainda de provar - replicou o marqus. Foi ento que
Esm postou-se ao lado do marqus, e
desafiando-o, perguntou:
- Como ousa interferir neste casamento? E o que este assunto tem a ver
com voc?
- Eu conheci o falecido lorde Seabrooke - respondeu o marqus rapidamente
-, e sei que ele jamais sonhara em ver sua nica filha tornar-se esposa
de um bgamo. Alm do mais, se no  verdade o que estou afirmando, ento
por que todo esse segredo em torno desse casamento? Daniela tem vrios
parentes na Inglaterra. Por que eles no esto aqui presentes?
- Isso no  da sua conta! - replicou Esm, furiosa.
- Receio que eu no seja da mesma opinio - retrucou o marqus. E logo em
seguida, voltando-se para sua protegida, ordenou: - Saia e entre na minha
carruagem.
Daniela, que at o momento o observara com os olhos brilhando, ergueu a
cauda do vestido, pronta para obedecer-lhe.
Esm, porm, mais que depressa adiantou-se para obstruirlhe a passagem,
mas sua enteada conseguiu se esquivar e fugir correndo de dentro da
igreja, descendo rapidamente os degraus da entrada e atirando-se dentro
da carruagem do marqus.
- No vou admitir uma coisa dessas! - Esm gritava ainda, enquando
Daniela se retirava.
O marqus no respondeu. Antes que algum tivesse tempo de tentar det-
lo, saiu atrs de Daniela, deixando o proco e os dois cmplices daquela
tramia boquiabertos e absolutamente sem ao.
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Assim que o marqus entrou na carruagem, seu valete, previamente
instrudo, fechou a porta que estivera segurando aberta e saltou para o
lado do cocheiro. Imediatamente os cavalos puseram-se em movimento.
S ento Daniela, as lgrimas escorrendo-lhe pelo rosto, conseguiu reunir
foras para dizer:
- O senhor... me salvou! Oh, foi to maravilhoso! J estava pensando que
a morte seria minha nica fuga!
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CAPTULO V

- No pense mais em morte - replicou o marqus, calmamente. - com sorte,
voc jamais ver aquela vbora novamente!
Ao acusar o conde de bigamia, certificara-se pela expresso dos olhos
dele ser verdadeira sua suposio de que a esposa de Andr de Sauzan
estava viva.
Era de esperar agora que o falso conde desaparecesse por algum tempo, 
procura de outra mulher menos avisada para dela extrair dinheiro.
Ao mesmo tempo, o marqus tinha claro em sua mente que o verdadeiro
inimigo de Daniela no era o conde, mas sim sua madrasta. Esm Blanc no
iria desistir to facilmente.
Olhando agora para Daniela, os olhos cheios de gratido, as lgrimas
ainda a escorrer-lhe pelo rosto, o marqus achou-a ainda mais bela.
- Como posso agradecer? - ela perguntou, em voz muito baixa. - Foi to
maravilhoso v-lo entrar naquela igreja no exato momento!
Depois de algum tempo, uma ruga de preocupao voltou  testa de Daniela,
e ela perguntou:
- O senhor acha que minha madrasta tentar nos alcanar na estao?
- Tenho quase certeza de que  o que ela pretende fazer, mas, se assim
for, ficar muitssimo desapontada.
- Por qu?
- Porque no vamos embora de Baden-Baden de trem?
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Daniela olhou para ele atnita.
- Ento como conseguiremos sair daqui? No podemos ir de carruagem por
todo o caminho at a costa.
- No, claro que no - concordou o marqus. - Felizmente, porm,
encontrei outro meio de transporte para ns.
Daniela continuava a fit-lo perplexa. Pensando agora com mais clareza,
conclua que seria muito difcil evitarem a deteno, principalmente
porque qualquer pessoa a identificaria com facilidade dentro de um
vestido de noiva.
com um sorriso nos lbios, o marqus explicou-se melhor, ainda instigando
Daniela:
- Existem duas formas de transporte que voc no mencionou.
- Quais? - Daniela perguntou, ansiosa.
- Ou por balo, instrumento que no temos no momento, ou por barco, que 
exatamente o tipo de transporte que
vamos usar.
Os olhos de Daniela se arregalaram, e ela repetiu:
- De... barco?
No conseguira ainda entender a que o marqus se referia. Estavam longe
do mar, cercados de montanhas por todos os lados, alm da Floresta Negra,
que sempre lhe parecera impenetrvel.
Afinal, sorrindo da ingenuidade de Daniela, o marqus esclareceu: - Voc
est se esquecendo do Reno!
O rosto dela abriu-se em um largo sorriso, revelando que suas esperanas,
momentaneamente ameaadas, outra vez se renovavam. No se esquecera das
aulas de geografia do convento, e sabia que o Reno era uma das maiores
rotas de navegao da Europa. Apenas no lhe ocorrera que ele passasse
to perto de Baden-Baden.
- Estamos a menos de vinte quilmetros de distncia do Reno - acrescentou
o marqus, como se pudesse ler-lhe os
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pensamentos. E aps uma pausa, continuou:
- Esse amigo que me emprestou a Villa cTHorizon felizmente tem uma
parelha de cavalos soberba, capaz de percorrer com facilidade essa
distncia, e em pouqussimo tempo.
Daniela engoliu a seco, radiante.
- Minha madrasta jamais nos alcanar, com aquele cavalo que nos levou 
igreja.
- No, a no ser que ele crie asas! - brincou o marqus. Enquanto se
afastavam da velha cidadezinha de BadenBaden, com suas casas do sculo
XVII, mais e mais Daniela tinha a sensao de que todos os seus problemas
e medos ficavam para trs. At que, depois de terem percorrido uma
distncia considervel, um tanto hesitante, ela comentou:
- Odeio ter de incomod-lo, mas receio que ainda tenha um problema para
resolver.
- O que ? - perguntou o marqus.
- No tenho outra roupa para usar seno este vestido de casamento!
- Por acaso voc est subestimando meu poder de organizao? - instigou-a
o marqus, um sorriso a brincar-lhe nos lbios. - Sabia que esta  uma
das minhas capacidades de que mais me orgulho. Considero-me insultado
pelo que voc disse!
- Oh, por favor, eu no pretendia... - Daniela, tentou emendar
rapidamente. -  que, ao mesmo tempo...
S ento ela percebeu que o marqus estava rindo de seu embarao.
- A no ser que alguma coisa tenha sado muito errada, e a criada que
voc mandou com o bilhete no tenha cumprido minhas instrues, sua
bagagem, a esta altura, j se encontra  bordo do Cavalo-Marinho.
Daniela olhou fixo para ele, incrdula.
- Meu iate estar  nossa espera quando chegarmos ao
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Reno - ele continuou. - Todas as suas malas foram enviadas para l,
dentro de uma carruagem puxada por seis cavalos!
- No acredito! - ela exclamou, mais uma vez maravilhada. - Eu s posso
estar sonhando. Ningum, exceto um mgico, poderia ser to fantstico
quanto o senhor!
- Obrigado pelo elogio, mas se vamos fazer essa longa viagem at a
Inglaterra juntos, prefiro que no me chame mais de senhor. Agora, quanto
a voc considerar-me um mgico, s espero no decepcion-la.
- S um mgico seria capaz de fazer aparecer um iate no momento exato em
que  mais necessrio - Daniela emendou.
O marqus sabia que tudo no passara de um acaso da sorte.
Uma das coisas que ele mais detestava era viajar de trem. As estradas de
ferro podiam ser consideradas uma grande inovao, mas na sua opinio os
trens eram barulhentos e desconfortveis demais.
Alm do mais, no gostava de ser levado para l e para c em to grande
velocidade, e tampouco passar as noites em uma cama onde nunca se
acomodava direito.
Na Inglaterra, sempre que era obrigado a empreender uma longa viagem de
trem, invariavelmente mandava prender seu vago particular em uma
locomotiva comum. Graas  importncia que tinha em seu pas, no
encontrava dificuldade alguma com relao a isso.
Quando decidira ir a Paris e a Baden-Baden, porm, fora obrigado a
enfrentar uma infinidade de formalidades. E o vago particular que
alugara no era nem de longe comparvel com o seu, o que tornara aquela
viagem ainda mais desconfortvel.
Para evitar o mesmo transtorno outra vez, mandara uma mensagem ao capito
do seu iate, ento ancorado no porto de Calais. Ordenara-lhe que subisse
o Reno e atracasse o mais prximo possvel de Baden-Baden.
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O Cavalo-Marinho no teria dificuldade de atravessar toda a Holanda pelo
Reno e ainda chegar a tempo, se o capito desse toda velocidade aos
potentes motores do iate.
Portanto, a no ser que tivesse ocorrido algum contratempo, seu iate j
estaria l. Era um trunfo que tinha nas mos que nem Esm Blanc, com toda
a sua astcia, poderia adivinhar.
Cora, sim, teria ficado decepcionada por v-lo partir sem despedir-se.
Por isso, antes de sair para ir  igreja buscar Daniela, rabiscara-lhe um
pequeno bilhete, informando-a que lamentava ter de voltar  Inglaterra
inesperadamente, sem mesmo ter tempo de lhe dizer adeus pessoalmente.
Tambm aproveitara para agradecer-lhe pelos momentos felizes que haviam
passado juntos.
Anexara ao bilhete um presente que, esperava, trouxesse de volta 
memria de Cora todo o prazer que haviam compartilhado. E rapidamente
entregara o bilhete a um criado, incumbindo-o de entreg-lo a Cora.
Tinha certeza de que ela iria gostar do presente. Vira na loja de Oscar
Massin, sem sombra de dvidas o joalheiro mais festejado e original de
Paris, um colar de prolas pretas. Nunca vira Cora usando nada parecido.
As prolas eram grandes e fariam um bonito contraste contra a pele alva
de Cora, uma das caractersticas mais elogiadas de sua beleza.
com um sorriso maroto nos lbios o marqus pensou que seu prximo amante
gostaria de v-la com o colar, totalmente nua sobre a cama preta.
Pessoalmente, considerava Cora Pearl mais um captulo de sua vida que se
encerrava, e felizmente, muitssimo bem. Mesmo se voltasse brevemente a
Paris, no a procuraria.
Gostava das mulheres s quais estendia seus favores, pela simples razo
de que o seu interesse por elas era puramente fsico. Jamais encontrara
algum que pudesse oferecer-lhe mais que seu corpo. Os assuntos mais
importantes e de seu interesse
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 preferia discutir com os amigos, no clube ou em visitas informais,
Mas nunca com uma mulher com a qual estivesse envolvido.
S ento, pensando no assunto, foi que se deu conta que jamais se dera a
tanto trabalho por mulher alguma, como estava acontecendo com relao a
Daniela. Talvez por ela ser to ingnua, ou por estar em uma situao que
apelava para os seus deveres de cavalheiro.
De qualquer maneira, tinha de parabenizar-se por sua prpria astcia ao
impedir a realizao daquele casamento, fugindo com Daniela da igreja,
sem causar grandes comoes, com exceo dos gritos que Esm lhe
dirigira.
Depois que saram dali, com certeza o clrigo mandara investigar a vida
de Andr de Sauzan, o que mais uma vez confirmava que ele no seria visto
em sociedade to cedo.
- Foi realmente muito divertido - disse o marqus para si mesmo.
Lamentava apenas ter perdido as corridas daquela tarde.
Os seus dois cavalos que, apesar de sua ausncia, haviam corrido,
partiriam em uma longa viagem de trem no dia seguinte, at que chegassem
a Newmarket, onde ficavam os estbulos.
A carruagem em que viajavam corria apressada agora por uma regio muito
arborizada, parte j da Floresta Negra.
A expresso de arrebatamento ainda no abandonara o rosto de Daniela.
Pelo canto dos olhos o marqus a viu concentrada, certamente dizendo uma
prece de gratido a Deus.
Nunca conhecera qualquer outra mulher, por mais afortunada, fosse no amor
ou no jogo, capaz de fazer o mesmo.
Para certificar-se de que no estava errado, ele disse, quebrando o
silncio que por alguns instantes imperara:
- Ou muito me engano, ou voc est fazendo uma prece agradecendo a Deus
por estar voltando  Inglaterra.
Daniela virou-se para olh-lo, seus olhos grandes
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sobressaindo-se no rosto delicado.
- Na noite passada - ela respondeu afinal -, tive a ntida sensao de que
minhas oraes estavam subindo at Deus como pssaros voando pelos cus. E
que tambm eu voava com eles.
- Bem, parece que Deus realmente a ouviu.
- Sim, mandando voc para salvar-me - disse Daniela na sua simplicidade.
- Creio que papai e mame devem ter dado uma mozinha tambm... Na verdade,
tenho ainda mui tas oraes de agradecimento a fazer.
De repente, achando que o marqus estivesse um tanto c tico quanto a sua
f, Daniela acrescentou:
- Papai sempre dizia que as pessoas so muito mal agra decidas. Choram e
reclamam quando as coisas vo mal, mas nunca se lembram de agradecer a
Deus quando conseguem resolver seus problemas.
- Seu pai tinha toda razo - concordou o marqus.
- Desde pequena, mame ensinou-me a agradecer por todas as bnos que eu
recebia. E no me refiro somente a brinquedos e festas, nem ao pnei que
eu costumava cavalgar, mas principalmente por meus olhos e ouvidos, pelos
dedos das mos e dos ps, e tambm por minha inteligncia. Alis, creio
que todos ns deveramos agradecer constantemente a Deus pela capacidade
intelectual que Ele nos deu.
Depois de uma pequena pausa, ela continuou:
- Embora eu tenha apelado para o seu corao quando lhe narrei minha
histria, foi sua inteligncia que o habilitou a resgatar-me no ltimo
instante, e armar todo esse maravilhoso plano de fuga atravs do rio
Reno.
E com um belo sorriso a iluminar-lhe outra vez o rosto, ela acrescentou:
- O seu iate ser como o golfinho que guiou Apolo ao porto da Grcia por
entre os rochedos pontiagudos.
No era a primeira vez que o marqus era comparado a
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Apolo, o famoso heri da mitologia, famoso por sua coragem, mas tambm
por sua grande beleza. Nunca, porm, algum fizera essa comparao para
elogiar-lhe a coragem, e isso o fez encantar-se ainda mais com Daniela.
- Como aquele golfinho - ela continuava -, o seu Cavalo-Marnho nos far
galopar sobre as guas, Reno abaixo, levando-me de volta  Inglaterra, o
meu verdadeiro lar.
Finalmente chegaram ao local onde o iate os esperava. Daniela
imediatamente saltou da carruagem e foi acariciar os cavalos que a toda
pressa os transportara at ali. Era mais uma forma de expressar sua
gratido, no s a Deus, mas tambm queles bravos animais.
Daniela retirara o vu dentro da carruagem, atirando-o ao cho, sobre o
buque de flor de laranjeira.
- Se algum dia eu me casar - dissera ela, enquanto ajeitava o cabelo -, o
que acho pouco provvel, jamais usarei essa flor!
- Por que no haveria de se casar? - perguntara o marqus, curioso,
achando estranha tal observao de uma moa to jovem.
- Creio ser impossvel encontrar algum que me ame por mim mesma, e no
pelo meu dinheiro.
Para o marqus tal preocupao era totalmente absurda, considerando a
beleza e a graa de Daniela. Mas para ela, esse assunto era muito srio.
Seu pai sempre desejara ter um filho homem. Lembrava-se ainda de certa
vez, quando tinha dez anos de idade, em que ouvira seus pais conversando,
sem saber que os ouvia.
- Oh, querido - dizia sua me -, se ao menos eu lhe tivesse dado um filho
para herdar esta casa e todas as nossas propriedades, voc estaria
orgulhoso de mim.
- Voc no deve se preocupar com isto, meu amor - fora a resposta de
lorde Seabrooke. - Temos Daniela, que  nosso bem mais precioso. Ela 
muito parecida com voc. Que
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homem no haveria de querer para si uma mulher to bonita. Aps refletir
um momento no que ele dissera, sua me ento  respondera:
- No  fcil para uma moa ser to rica. Sempre haver centenas de caa-
dotes a rode-la, enquanto que os homens decentes ficaro a distncia,
receosos de que interpretem mal suas intenes.
Lorde Seabrooke rira, e replicara:
- Pois eu aposto que, sendo Daniela to bonita quanto voc, homem algum ir
se preocupar em saber se ela  herdeira de uma grande fortuna ou de
apenas uma poro de dvidas! Quando chegar a hora e aparecer o
companheiro certo para nossa filha, ele perder completamente o
domnio
sobre o prprio corao, como aconteceu comigo, e ento nada  mais
importar!
Enquanto contava ao marqus esse episdio, Daniela olhava pela janela da
carruagem, pensativa, os olhos estreitos por causa do vento, que lhe
jogava para trs o cabelo sedoso.
- Talvez eu tenha a mesma sorte que mame - ela com pletara. - Mas a
impresso que tenho  que s vou encon trar homens como o conde em minha
vida. Se um dia me casar com um homem assim, nem voc poder me ajudar.
- Isso  realmente um problema - respondera o marqus, calmamente. - Mas
ainda  muito jovem, Daniela. Depois que sua av a apresentar  corte e
voc passar a frequenta os bailes, vai descobrir que h muitos homens to
ricos quanto voc, capazes de um sentimento sincero, sem segundas in
tenes.
Daniela no respondera, mas o marqus tivera a impresso de que ela
duvidava que um dia fosse encontrar uma pessoa como ele descrevera.
Depois de ter acariciado os cavalos e agradecido ao cocheiro pela rapidez
em que haviam viajado, ela voltou-se  procura do marqus, o rosto
afogueado de felicidade.
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Ele caminhava em direo ao rio, onde estava atracado o Cavalo-Marinho.
Mais alm, sob a sombra de algumas rvores, estava a carruagem que
trouxera a bagagem de Daniela desde o hotel.
- Tudo aconteceu exatamente como voc previu - disse ela, alcanando o
marqus.
- Sim, alegra-me saber que minhas ordens foram cumpridas. Evitamos assim
muitos aborrecimentos, e de minha parte, uma grande humilhao.
O capito do iate os esperava, sorridente, dentro da embarcao. Depois
de atravessarem a prancha que unia a terra firme ao Cavalo-Marinho, o
marqus os apresentou.
O restante da tripulao encontrava-se a postos para partir to logo o
marqus ordenasse, e ele no tardou a faz-lo.
- Desejo partir imediatamente, capito. D toda a velocidade que este
iate possa suportar!
- Muito bem, milorde - replicou o capito.
Antes que a prancha fosse recolhida e a ncora iada, o marqus entregou
uma grande recompensa aos cocheiros das duas carruagens que os haviam
servido.
Enquanto isso, Daniela entrava no salo principal do iate, todo decorado
em verde, com vrios quadros representando cavalos ou corridas pendurados
nas paredes, evidenciando novamente a grande paixo do marqus.
De repente sentiu o cho trepidar sob seus ps, e ouviu o rudo surdo dos
motores acionados. Daniela correu at as janelas do salo para ver as
margens do rio passando. - Temos a Alemanha de um lado - disse ela para o
mariqus, assim que o viu entrar - e a Frana do outro! - Exatamente.
- Estou tentando me lembrar de todas as lendas que ouvi sobre o Reno, mas
voc deve conhec-las melhor do que eu. Espero que mais tarde possa me
contar. Nunca mulher alguma pedira tal coisa para o marqus.
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Em geral evitava viajar de iate com alguma companhia feminina. Elas
passavam a maior parte do tempo enjoadas, e por acharem montona a
viagem, exigiam sua presena o tempo todo ao lado delas.
Naquele momento os marinheiros traziam o almoo para dentro do salo. E
isso fez o marqus lembrar-se de outro grande prazer seu, e que
invariavelmente as mulheres acabavam estragando: a cozinha francesa. Por
mais que seu cozinheiro se esforasse, nunca conseguia agradar suas
amigas. Elas estavam sempre preocupadas demais com a silhueta, e mal
tocavam na comida. Daniela, porm, perguntou apenas:
- Voc se importa se eu deixar para trocar de roupa depois do almoo?
Estou com tanta fome!
- Fique  vontade. Voc fica muito bonita com este vestido - disse o
marqus automaticamente, como o teria feito para qualquer outra mulher
que o acompanhasse.
Daniela, no entanto, riu daquela observao, e comentou:
- Voc sabe que nada poderia ser mais inadequado para um iate que um
vestido de noiva! Mas como estamos s ns dois aqui, tenho certeza de que
voc me perdoar esta gafe terrvel!
- Vamos tomar uma taa de champanhe - sugeriu o marqus, reconhecendo que
mais uma vez Daniela tinha razo.
- Afinal, temos muito que comemorar!
Mas outra vez sua protegida o surpreendeu, respondendo:
- Se no se importa, prefiro deixar o champanhe para mais tarde. Gostaria
de tomar apenas um copo de limonada, para matar a sede.
Durante todo o almoo, Daniela no se cansava de elogiar a excelente
comida que lhes foi servida, provando de tudo sem restries.
Espantado ante as observaes precisas que ela fazia, o marqus
perguntou:
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Como voc sabe tanto a respeito da cozinha francesa? Duvido que tivesse
um bom chef no convento.
- Infelizmente, no! - retrucou Daniela, rindo. - Nossas refeies eram
bastante frugais, na verdade. Diziam que era para o bem de nossas almas!
Mas papai sempre foi um grande apreciador da cozinha francesa, e mame
acabou tornando-se uma grande conhecedora do assunto. Certa vez em que
tivemos um cozinheiro francs ao nosso servio, era ela quem o ensinava,
e no o contrrio!
- E voc aprendeu com ela a preparar alguns pratos? quis saber o marqus.
- Sim, aprendi. Se me permitir, um dia desses preparo um dos pratos
preferidos de papai.
De repente veio ao marqus a ideia de que seria divertido levar Daniela a
alguns restaurantes de Paris, considerados em todo o mundo como os
melhores. Os cozinheiros de cada um deles rivalizavam-se como se fossem
lutadores em um ringue.
Isso o fez lembrar-se da observao que um amigo fizera certa vez em que
haviam jantado juntos em Paris.
- Neste pas voc pode seduzir a esposa de um homem, ou mesmo roubar-lhe
a amante, mas fique longe do seu chef, ou correr o risco de levar um
tiro  queima-roupa!
O marqus na poca rira. Claro, era um exagero, mas bem demonstrava o
esprito e o prazer que envolvem tudo o que diz respeito  comida na
Frana.
Nesse momento a voz de Daniela chamou-lhe a ateno.
- Por favor - ela dizia -, estou ansiosa para conhecer todo o iate.
Gostaria de aproveitar para dizer ao seu cozinheiro o quanto apreciei
esta refeio deliciosa. Voc se incomoda?
- No, pelo contrrio - respondeu o marqus. - Mas no seria melhor voc
mudar a roupa primeiro?
- Oh, sim, claro - respondeu ela, j esquecida do vestido de noiva. - Mas
 verdade mesmo, senhor mgico, que as minhas roupas esto aqui neste
iate?
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- A menos que uma sereia as tenha roubado do seu camarote... - brincou
o marqus.
- Preciso ir ver com meus prprios olhos. Nada disto prece ser real...
este iate, este almoo... voc!
Junto  porta do salo ela se voltou, olhou de novo para o marqus, e
disse:
- Tenho medo de acordar e descobrir que tudo no passou de um sonho!
Ento ela se foi, e o marqus novamente concluiu que Daniela era
diferente de qualquer mulher que j estivera a bordo do Cavalo-Marinho.
-  apenas uma menina - disse em voz alta. - Vai ser uma pena quando ela
crescer e se conscientizar da prpria beleza. A ento se julgar no
direito de exigir praticamente tudo do homem que se prender a ela.
Mas no ia ser fcil chegar at l. Como poderia, com Esm insistindo em
fazer uso dos seus direitos de tutora? Se ela j fora capaz de tudo que
fizera sem ser provocada, muito mais agora, humilhada e vendo frustrado
seu plano de casar Daniela com seu amante. No seria de espantar se ela
resolvesse mudar para a Inglaterra e ocupar Seabrooke Hall, a casa da
famlia do seu falecido marido.
Quem entre os parentes de Daniela seria forte o bastante para enfrentar
aquela mulher?
- vou conversar com Daniela ainda esta noite, e tentar descobrir como so
os seus parentes - disse o marqus para si mesmo.
Ao mesmo tempo, no fundo do corao j o incomodava a possibilidade de
Daniela no ter tios ou primos na famlia. Afinal, nunca vira lorde
Seabrooke acompanhado por um parente nas corridas, prtica comum em toda
a Inglaterra.
- Tem que haver algum!
Mas nem assim essa dvida o deixava.
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pouco depois, Daniela voltava ao salo, vinda do camarote. Usava agora um
vestido preto, bem simples, que qualquer outra jovem usaria para passear
no jardim ou em ocasies menos importantes.
Ainda assim o marqus no pode deixar de admirar-lhe a beleza, se no
maior que a de Cora Pearl, pelo menos era mais encantadora.
Seus olhos brilhavam e seus lbios estavam abertos em um bonito sorriso.
Parecia personagem de um conto de fadas.
- Como seu valete  gentil! - disse ela ao marqus. Ele j havia tirado
toda a minha roupa da mala, e pendurado no guarda-roupas.
- Bowles  realmente muito dedicado - concordou o marqus -, mas no deve
encoraj-lo a aproximar-se demais de voc.
- Ora, e por que no?
- Porque ele sabe demais, e fala demais!
Esse era o tipo de observao que teria feito qualquer outra convidada
dar risinhos maliciosos. Daniela, no entanto, perguntou apenas:
- Quer dizer, ele sabe demais a seu respeito, no ?  como papai sempre
dizia, homem algum consegue ser heri para o seu prprio valete!
- No que me diz respeito, sem falsa modstia, Bowles s vezes me
considera maior que um heri. Ele tem a capacidade de transformar as
minhas piores derrotas nas mais retumbantes vitrias!
- Oh, mas tenho certeza que ele tem razo. E j que voc  um heri
tambm para mim, creio que Bowles e eu vamos nos dar muito bem.
No havia a menor sombra de malcia no que Daniela dizia. Sua
naturalidade bastava para tranquilizar o marqus Quanto a isso.
- Ser que agora posso ir conhecer o seu iate? - Daniela
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voltou a perguntar. - Quero ver a casa das mquinas, incrvel como so
silenciosos estes motores!
Bem-humorado e muito orgulhoso do seu Cavalo-Marinho  desenhado em parte por
ele mesmo, o marqus prontificou-se a satisfazer-lhe a curiosidade.
Daniela mostrou-se muito curiosa, fazendo perguntas inteligentes ao
marqus, que vez por outra era obrigado a recorrer ao capito para
explicar algum detalhe mais complicado.
Aquele era um mundo novo e absolutamente fascinante para ela. Mas at
onde no era uma completa estranha, como por exemplo, na cozinha, Daniela
mostrou-se bastante entusiasmada.
O cozinheiro do iate ficou todo satisfeito ao ouvi-la elogiar o almoo,
no como uma leiga, mas com a autoridade de algum que conhece muito bem
a cozinha francesa.
- Farei algo realmente especial para o jantar, em sua homenagem,
mademoiselle - prometeu ele, todo sorridente.
- Oh, j estou com gua na boca - Daniela respondeu.
- Prometo no desperdiar um bocado sequer.
- Voc realmente conseguiu deix-lo contente - observou o marqus,
enquanto se afastavam da cozinha. - Se no tomarmos cuidado, vamos ficar
comendo at a meia-noite!
E o marqus riu de sua prpria brincadeira, acompanhado por Daniela,
inebriante em sua alegria.
Como que para refrear um pouco a crescente admirao que sentia por sua
protegida, o marqus novamente disse para si mesmo que Daniela era muito
jovem. Mais alguns anos e ela no estaria mais interessada em comida, mas
somente nos elogios que alguns homens mais afortunados lhe fariam 
beleza do seu corpo e ao encanto do seu rosto.
Cada centmetro do iate foi inspecionado por Daniela, desde a proa at 
popa.
Findo o passeio, sentaram-se nas espreguiadeiras do convs
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 colocadas sob um toldo que projetava uma gostosa sombra onde estavam. As
cadeiras eram muito confortveis, feitas de palhinhas, e tinham um
banquinho  frente, sobre os quais
podia-se descansar os ps.
Daniela recostou-se nas almofadas macias da cadeira e exclamou,
extasiada:
- Que gostoso! Para completar o dia, s falta voc se decidir a contar-me
algumas lendas do Reno.
O marqus olhou para ela, surpreso.
- Est mesmo interessada nestas lendas?
- Mas  claro! So to belas estas histrias de princesas e cavaleiros
encantados. E seria ainda mais emocionante imagin-los agora que
percorremos o Reno, em cujas margens se passam todas estas lendas, no
acha?
- Eu lhe darei um livro que conte todas elas - prometeu o marqus. - H
muito tempo que no as conto, e receio j ter esquecido a maioria delas.
Daniela permaneceu em silncio por um momento at que por fim, em voz
baixa, declarou:
- Se eu estiver aborrecendo voc, por favor, no se acanhe em diz-lo. E
se preferir ficar a ss com seus pensamentos, prometo ficar quieta e no
perturb-lo mais.
O marqus sorriu.
- No se preocupe com isto. Mas de onde foi tirar essa ideia? Voc ainda
deve estar sob o efeito de toda a dor por que tem passado. Mas procure
encarar os fatos de maneira Positiva. Se hoje eles lhe parecem
dramticos, amanh com certeza estar rindo de tudo o que aconteceu!
- Pode ser. Mas foi tudo to trgico... Exceto quando ouvi sua voz atrs
de mim, na igreja. Eu j havia perdido a esperana de v-lo novamente.
Tudo o que pensava era em morrer antes de ver-me a ss com o conde. Mas
de repente, l
estava voc! Era comovente ouvir-lhe a voz, trmula at, rememorando
93
toda aquela srie de acontecimentos to dramticos.
- Nessa manh - Daniela continuou, como se visse novmente tudo que lhe
acontecera -, antes de entrarmos na igreja, ofereci  minha madrasta metade
de minha fortuna para no ter de me casar com o conde. Cheguei a propor
que ficssemos morando juntas, as duas. Tudo para no ter como  marido um
homem a quem eu tanto desprezava...
Daniela fez uma pausa, como se a voz lhe custasse a sair Mas por fim, com
grande esforo, concluiu:
- principalmente porque ele j pertencia... a ela!
Ainda que considerando um grande erro encoraj-la a pensar naquele
assunto quando tudo ainda era to recente, o marqus perguntou:
- E o que sua madrasta respondeu?
- Ela disse: Por que haveria eu de aceitar metade do bolo quando posso
com-lo inteiro?
- Esquea essa mulher! - exclamou o marqus, rispidamente. - Pelo menos
por algum tempo, evite pensar que ela existe.
Ento, como se percebesse que isso no era realmente possvel, continuou:
- Voc no disse que eu sou um mgico, e que este iat nada mais  que
fruto do meu poder?
Sorrindo para ela, prosseguiu:
- Confie mais um pouco em mim. Pense que sou capaz de fazer desaparecer no
ar todos os problemas que ainda esto  sua frente, exatamente como eu
fiz hoje pela manh.
- Foi tudo to maravilhoso, que ainda nem posso acre ditar que seja
verdade!
- Mas  verdade - disse o marqus - pelo menos enquanto voc estiver a
salvo no Cavalo-Marinho. No quero v-la assim to triste. Procure
esquecer sua madrasta, e concentre-se apenas em divertir-se um pouco
durante aviagem.
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- Alimentando-se das suas deliciosas comidas, no ser difcil - disse
Daniela. - Isso sem falar na beleza do Reno!
Os olhos do marqus brilharam. Fosse outra mulher a acompanh-lo, teria
aproveitado para insinuar-se, cheia de segundas intenes. Mesmo Cora lhe
teria dado uma outra resposta.
Fez silncio por um momento, at que Daniela observou:
- Voc est certo, marqus. Quando pensamos sem parar nos nossos
inimigos, estamos lhes outorgando um poder enorme sobre ns. Mas se
tivermos em nossa mente apenas o que  bom e bonito, nenhum mal poder
nos atingir.
Ao marqus ficou a impresso de que Daniela estava transformando tudo
aquilo em um conto de fadas. S lhe restava pedir a Deus que, ao
contrrio de muitas lendas que cobriam o Reno, dessa vez houvesse um
final feliz.
Voltando-se para Daniela, no entanto, preferiu disfarar suas
preocupaes, dizendo:
-  exatamente o que vamos fazer. Sendo voc a nica dama a bordo, ter
de descobrir formas de impedir que eu me aborrea, e de me divertir.
- Agora voc est falando como um verdadeiro sulto!
- Daniela exclamou, rindo, mais aliviada. - Tragam as odaliscas  minha
presena! - e ela bateu palmas.
- Infelizmente nosso estoque est um tanto reduzido replicou o marqus.
- Agora voc no est sabendo usar sua imaginao. Ter de multiplicar-me
por cinco ou talvez mais, e darei o melhor de mim para cumprir minha
misso!
Ela fez um pequeno gesto com as mos, indicando obedincia, que o marqus
achou muito gracioso. Pegando-o totalmente de surpresa, ela ento
perguntou:
-  verdade que em uma festa em Paris o prncipe Napoleo ofereceu a Cora
Pearl, sua acompanhante na noite passada, um vago inteiro de orqudeas
carssimas?
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O marqus franziu a testa ao ouvi-la, mas Daniela no percebeu
e continuou:
- Dizem que ela espalhou as orqudeas todas pelo cho e sobre elas danou
o canc.
- Quem foi que lhe contou tal histria? - quis saber o marqus, evitando
admitir a verdade.
- Esm tocou neste assunto enquanto prendia duas orqudeas que comprara
para usar no vestido, na noite passa da - respondeu Daniela.
Imediatamente ela levou os dedos aos lbios desculpando-se:
- Sinto muito por t-la mencionado. Voc me pediu para esquec-la, e aqui
estou eu falando em Esm outra vez.
- Sim, esquea de Esm, de Cora Pearl, e de todas as mulheres como elas.
Quando toda esta confuso tiver passado, Daniela, voc entender que, ao
contrrio delas, voc nasceu para ser uma dama!
Daniela fez meno de interromp-lo, mas o marqus no deixou:
- As verdadeiras damas no convivem com esse tipo de mulher que estava no
cassino na noite passada, e tampouco com pessoas que, como Esm, tentam
abusar da prpria enteada.
- Eu realmente sinto muito - disse Daniela em voz contrita. - Pensei que
voc gostasse dessas mulheres. Papai devia gostar, pois se aproximou de
madame Blanc a ponto de casar-se com ela, ainda que inconscientemente.
Depois de um suspiro, ela ainda acrescentou:
- Mas nunca serei como elas.
- D graas a Deus por isso! - exclamou o marqus, mais que depressa. -
Procure entender, sua teimosa, que voc  diferente. Sua beleza no 
fruto de um estpido pincel de maquilagem, e no precisa danar em cima
de orqudeas para chamar a ateno dos homens. Voc j  tudo que um homem
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pode desejar de uma esposa.
O marqus falava spera e rapidamente, enquanto Daniela se mantinha
calada, pensando em tudo que ouvia. At que afinal ela ponderou:
- Quer dizer que, na sua opinio, a despeito do meu dinheiro, um homem
que seja realmente gentil e cavalheiro como voc e papai poderia casar-
se comigo apenas porque sou como sou?
- Exatamente - concordou o marqus. - Um homem que vai se apaixonar no
s por sua beleza, mas tambm por que voc  pura.
Nesse momento, o marqus olhou bem dentro dos olhos de Daniela, que se
iluminaram, emprestando ao seu rosto uma nova cor, bela sim, mas muito
reveladora.
E de repente ele foi obrigado a constatar que estava pisando em terreno
extremamente perigoso.
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CAPTULO VI

- Olhe, marqus! Nunca vi nada to bonito! Parece que vo surgir fadas e
faunos nas margens do rio a qualquer momento!
Daniela estava to entusiasmada e alegre que acabou con tagiando o
marqus, cada vez mais encantado com a beleza do cenrio que os rodeava.
Ao chegarem a Bingen, ento, ele tambm teve a impresso de que
atravessavam um reino de fadas. Havia castelos e mais castelos de ambos os
lados do rio, emergindo por en tre os arvoredos e sobre lindas formaes
rochosas.
Era difcil saber qual ngulo do iate era melhor para apreciar aquelas
maravilhas. Daniela corria para cima e para baixo pelo convs, com medo
de perder alguma coisa.
Mais contido, porm no menos encantado, para o mar qus aqueles castelos
eram parte das histrias que lhe haviam sido contadas quando criana. L
estava o Lahneck, a fortaleza dos cavaleiros templrios, e mais  frente
a fortaleza do rei Konigsstuhl, onde importantes imperadores foram
coroados.
Alm dos castelos, das cascatas e dos morros, belas barcaas subiam e
desciam o rio a todo momento, alegrando ainda mais Daniela. Algumas
carregavam carvo destinado  Itlia, outras transportavam petrleo russo
e trigo da Prssia para os demais pases europeus.
Um grande nmero delas levava madeira da Floresta Negra.
Foi difcil ao marqus persuadir Daniela a entrar para o

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salo quando o lanche foi servido. Estava determinada a no perder nada
do que acontecia ali fora.
Mais uma vez ela o surpreendia, por sua natureza to sincera e por seu
amor apaixonado  vida.
Ela ansiava por chegar a Woerth onde, alm de um belo conjunto de
cataratas e de pinheiros e carvalhos que praticamente escondiam as
margens, havia um castelo medieval no meio do rio, que s podia ser
atingido atravs de uma ponte com capacidade para uma pessoa a p por
vez.
- Ser que poderemos chegar mais perto, ou mesmo descer para passearmos
pelo castelo? - pediu Daniela.
O marqus fez que no com a cabea.
- Creio que o mais aconselhvel no momento  irmos direto para a
Inglaterra, o mais rpido possvel.
Daniela praticamente se esquecera do motivo daquela viagem, to
entusiasmada estava com a beleza da paisagem.
- Sim,  claro... Voc tem razo, como sempre! Embora procurasse a todo
instante acalmar-se, o marqus
estava bastante preocupado. Esm devia estar fazendo todo o possvel para
alcanar Daniela antes que ela chegasse  segurana dos seus parentes.
No se esquecera de ordenar ao capito que avisasse a tripulao para que
ningum mencionasse, sob hiptese alguma e a quem quer que fosse, a
presena de uma convidada no iate.
- Se algum perguntar, estou viajando sozinho. Faa com que todos saibam
que qualquer desobedincia neste sentido implicar em demisso imediata!
O capito ficara surpreso diante da forma incisiva com que o marqus lhe
dera aquela ordem, mas respondera prontamente:
- Eu lhe asseguro, milorde, que suas ordens sero cumpridas  risca por
todos os meus homens.
Na segunda noite a bordo do Cavalo-Marinho Daniela e
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o marqus saram para o convs, aps outro delicioso jantar preparado com
todo o carinho pelo chefda cozinha. Os ltimos raios rubros do sol
tingiam o firmamento, e algumas estrelas j comeavam a brilhar, como se
dia e noite se cumprimentassem por aquele espetculo, o mais belo do
mundo.
As margens do rio aos poucos tornavam-se mais misteriosas e romnticas,
as sombras das rvores escondendo tudo o que a imaginao pudesse criar.
Naquele momento era difcil duvidar que todas as lendas no fossem
relatos fiis da histria dos mais fantsticos personagens que habitavam
as margens do Reno.
As barcaas e demais embarcaes cediam lugar agora s ninfas que
banhavam-se nas guas rasas do rio. Cavaleiros encantados, em suas
armaduras brilhantes, patrulhavam os castelos. Enfim, o mundo vivia a
mgica experincia de provar que era real o que os homens, com toda sua
cincia e presuno, relegavam  fantasia.
Por um longo tempo nem Daniela nem o marqus disseram palavra.
Contagiados pelo encanto do momento, era como se nada mais existisse
seno aquele cenrio digno dos melhores contos de fadas.
Afinal, com um suspiro, Daniela no se conteve e exclamou:
- Como esse lugar  lindo! Sinto-me como se estivesse dentro de uma
igreja, na presena de Deus.
- Sim, acho que voc tem razo - concordou o marqus.
- Jamais serei capaz de esquecer este momento - ela acrescentou, olhando
para as estrelas.
O marqus tambm parecia fascinado no s pela beleza do rio e do
crepsculo, mas principalmente com Daniela. Na sua opinio, ela era
adorvel demais para estar sozinha no mundo, sem ningum para dedicar-lhe
amor, cuidado e carinho.
Era a primeira vez que essa ideia lhe ocorria, trazendo uma
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nova preocupao: se algum soubesse que Daniela estava viajando sozinha
com ele no seu iate, certamente a reputao dela ficaria seriamente
comprometida. No era preciso pensar muito para saber o que as pessoas
diriam de tal situao.
Estava certo porm de que isso no ocorrera a Daniela. Em momento algum
ela demonstrara embarao por no ter sequer uma dama de companhia. Sua
inocncia e ignorncia das maldades do mundo social faziam-na comportar-
se com a mesma naturalidade que teria se estivesse acompanhada do pai ou
de um irmo.
O marqus tinha de reconhecer que isso era um prazer para o seu ego, e de
certa forma, um alvio. Estava acostumado a ser cortejado o tempo todo,
s vezes a ponto de incomodlo profundamente. Era portanto uma
experincia nova encontrar em Daniela mais uma aluna que uma pretendente
a amante.
O crepsculo se transformara em noite e as estrelas brilhavam mais que
diamantes.
Finalmente voltaram para o salo do iate.
- Acho que no vou conseguir ficar muito tempo aqui dentro - comentou
Daniela -, com essa noite maravilhosa que est fazendo l fora.
- No se preocupe, amanh estar tudo exatamente onde voc deixou -
brincou o marqus. - Apesar de que acho o Reno mais bonito aqui do que na
regio de Colnia.
Ainda que um tanto contrariada, Daniela perguntou:
- No poderemos parar em Colnia, para visitarmos a catedral? As freiras
do convento me ensinaram que essa cidade tambm  conhecida como "A Roma
do norte". E sua catedral levou seiscentos e trinta e dois anos para ser
construda, sendo hoje a quinta em tamanho no mundo!
O marqus sorriu.
- Creio que nessa viagem no ser possvel visit-la, mas tenho certeza
que dentro em breve no faltaro oportunidads
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para voc voltar e conhec-la com toda a calma.
- Sim, talvez - disse Daniela, desanimada.
No rosto dela via-se todo o peso que a possibilidade de Esm estar no seu
encalo lhe causava.
Ainda que penalizado, o marqus procurou mudar de assunto:
- Pelo menos, prometo tentar comprar para voc um vidro de Eau de
Cologne. Ela foi inventada em 1709, quando se descobriu que o lcool
puro, combinado com a flor de laranjeira, serve como uma excelente base
para um perfume absolutamente mgico.
Embora sua inteno fosse desviar o pensamento de Daniela de sua
madrasta, s percebeu que cometera um grave engano ao mencionar a flor de
laranjeira quando j era tarde demais.
Daniela levantou-se e caminhou at a janela aberta para olhar para a
escurido. Algumas poucas luzes tremeluziam na margem do rio, subindo
pelas colinas at atingirem o topo. As montanhas recostavam-se contra o
cu noturno.
- E se acontecer de minha madrasta ir atrs de mim na Inglaterra - disse
Daniela, sem desviar o olhar - com um outro noivo a quem eu deva me unir
em casamento? Como farei para encontr-lo novamente, marqus?
Ciente da importncia de sua resposta, ele pensou por um momento antes de
responder:
- Prometo que voc sempre saber como entrar em contato comigo. Mas
pretendo certificar-me de que um dos seus parentes cuide de voc e impea
que esse tipo de coisa acontea outra vez.
Daniela nada respondeu, e o marqus continuou:
- Temos nos dedicado tanto a admirar o rio que no tive tempo de
conversar com voc sobre quais dos seus parentes deveramos procurar para
pedir ajuda.
- No  consigo pensar em ningum - Daniela replicou.
- Mas tem que haver algum! - insistiu o marqus. Seu pai no tinha
irmos?
- Tinha um... que morreu h anos.
- E sua me?
- O pai de mame ainda est vivo, mas  muito velho. Na verdade, ele j
passou dos oitenta anos! E seu nico filho foi morto na ndia, h cinco
anos.
O marqus ficou quieto, sem saber o que dizer, enquanto Daniela
continuava:
- Acho que o fato de eu no ter quase nenhum parente homem foi o motivo
que levou meus pais a elegerem seus advogados como responsveis pela
guarda do dinheiro que eu herdaria.
Aps uma pausa, ela acrescentou:
- Eles sempre diziam que as mulheres no so muito boas nos negcios.
- Neste ponto estou de pleno acordo - intrometeu-se o marqus.
Mas na verdade ele pensava que seria muito difcil para Daniela opor-se 
Esm Blanc se esta reclamasse na justia seus direitos como tutora legal.
De nada adiantaria, porm, fazer Daniela passar a noite acordada,
remoendo o assunto. Por isso, fingindo absoluta tranquilidade, emendou:
- Mas no h pressa. Conversaremos sobre isto mais tarde, quando
chegarmos ao Mar do Norte, e tivermos de arranjar alguma coisa para
compensar o enjoo de tantos dias
no mar.
- Est com medo que eu passe mal? - Daniela perguntou. - Bowles me disse
que voc no gosta de viajar com mulher porque elas ficam doentes com
facilidade no mar revolto, e tambm por nunca ficarem  vontade dentro de
um iate, por mais luxuoso que ele seja.
- Eu no a avisei que Bowles fala demais? - retrucou o marqus. - Mas
reconheo que existe alguma verdade no
que ele disse.
- Prometo no enjoar. Na verdade, acho que a nica coisa capaz de me
incomodar  saber que esta encantadora viagem est chegando ao seu final,
e que voc ficar feliz em se ver livre de mim.
- Eu no disse isto - protestou o marqus.
- Mas j deve ter pensado nisto. No sou to ingnua assim. Sei muito bem
que represento um transtorno para voc. No o culpo por isso.
- Agora voc est querendo que lhe faa uma poro de elogios - observou
o marqus, risonho. - J que  assim, l vai: tenho gostado muito das
nossas conversas. Voc  muito inteligente, etc. etc. etc.
- De minha parte, estou adorando cada minuto que passo neste iate -
replicou Daniela, sem disfarar sua alegria, ainda que ignorando a
brincadeira. - Assim que chegarmos  Inglaterra, vou ler tudo que
encontrar sobre o Reno, e ouvir tudo que Lizt e Beethoven compuseram
sobre ele.
Voltando-se ento da janela, Daniela acrescentou:
- Voc  to gentil para comigo. No sei se um dia poderei retribuir tudo
que fez por mim.
O marqus levantou-se para dirigir-se ao seu camarote. Antes, porm,
despediu-se:
- Boa noite, Daniela. Durma bem. Os espritos do Reno estaro velando por
voc.
- Boa noite - Daniela respondeu, suavemente.
E enquanto se curvava em uma pequena cortesia, ela tomou a mo do marqus
e a beijou.
O toque macio daqueles lbios contra sua pele o surpreendeu, ao mesmo
tempo que Daniela, intimidada, se voltava e rapidamente desaparecia pela
porta que conduzia aos camarotes.
com uma ruga de preocupao a franzir-lhe a testa, o marqus deixou-se
ficar mais algum tempo no salo. At que afinal,
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cedendo a um impulso, saiu para o convs novamente, em busca de ar
puro.
Era manh bem cedo, e o marqus dormia a sono solto. Fora para a cama
vrias horas depois que Daniela o deixara. Subitamente, Bowles entrou
em seu camarote e o chamou:
 - Acorde, milorde! - Havia urgncia em sua voz.
 O marqus abriu os olhos lentamente, para ver seu valete p
junto da cama. Suspeitando que ainda era cedo, perguntou:
 - O que foi, Bowles?
- Um membro da polcia costeira subiu a bordo, e ordenou ao capito que
levasse o iate para o porto de Colnia!
O marqus sentou-se na cama.
- Por que motivo? - perguntou rapidamente.
- Pelo que entendi, milorde, o chefe de polcia quer que seja feita uma
busca no Cavalo-Marinho. Parece que esto a procura de uma pessoa
desaparecida!
O marqus prendeu a respirao. Mas afinal conseguiu dizer:
- Diga ao policial que est aqui que ser uma honra avistar-me com ele,
to logo me vista. Enquanto isso, faa com que lhe seja servido o melhor
caf da manh possvel no salo. Em seguida volte imediatamente para c.
- Pois no, milorde.
Quando Bowles saiu do camarote o marqus j se vestia, para logo depois
dirigir-se ao camarote de Daniela, pegado ao seu. Sem bater na porta, ele
entrou, para encontr-la profundamente adormecida.
As cortinas que cobriam as escotilhas estavam abertas, com certeza para
que Daniela apreciasse mais um pouco as estrelas enquanto o sono no
vinha. No momento, um sol plido infiltrava-se por ali, ao mesmo tempo em
que ia limpando gentilmente o cu da nvoa que o encobria.
A luz do dia parecia acariciar os vastos cabelos de Daniela, espalhados
sobre o travesseiro. Seus clios negros formavam um bonito contraste
contra a pele.
Olhando para ela naquele momento, o marqus achou-a a mulher mais bela
que j vira.
A noite quente a fizera jogar para o lado o lenol de linho, e nada mais
a cobria seno o tecido fino da camisola, revelando as curvas perfeitas
dos seios e coxas.
De repente ocorreu ao marqus a ideia de despert-la com um beijo. S
assim saberia se seus lbios eram to suaves quanto lhe parecera quando
ela lhe beijara a mo.
- Daniela, acorde! - disse ele afinal, esforando-se para se controlar.
Um sorriso aflorou dos lbios dela, como se aquela voz fosse agradvel
aos seus sonhos.
- Levante-se! - ele chamou novamente.
Dessa vez os grandes clios de Daniela tremeram e ela abriu os olhos.
Imediatamente eles se encheram de alegria por vlo ali.
Mas o marqus no deu ateno a isso, dizendo rapidamente:
- Estamos correndo perigo. Um membro da polcia costeira encontra-se a
bordo. Voc tem que se esconder!
- M-minha madrasta?...
Essas palavras escaparam-lhe dos lbios, enquanto ela se sentava na cama.
- Receio que sim - disse o marqus, sinceramente. Temos ordens de atracar
em Colnia.
- Ela vai estar l... esperando por mim! - gritou Daniela. - Esm vai me
levar embora com ela... Oh, por favor, salve-me!
-  exatamente o que pretendo fazer. Rpido, levante-se imediatamente.
Enquanto ela o obedecia, admirando-lhe a coragem, o marqus
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 dirigiu-se ao guarda-roupas do camarote e abriu-o. Os vestidos de
Daniela estavam ali dependurados, como Bowles os dispusera. Depois de
observ-los por um momento, ele afinal pressionou uma pequena alavanca
embutida no teto do armrio, to bem escondida que Daniela nem sequer lhe
imaginara a existncia.
Ouviu-se um pequeno estalido e o fundo do armrio moveuse para o lado,
revelando um pequeno compartimento. Pressionando uma outra alavanca toda
a parte da frente do guardaroupa entrou naquela abertura, levando consigo
os vestidos e tudo o mais que tivesse em seu interior. Em seguida, o
fundo do armrio voltou ao seu lugar.
No havia o menor vestgio de roupas de mulher naquele camarote, e nem
mesmo de um armrio, exceto por um cinto de um dos vestido que cara no
cho.
Daniela olhava a tudo boquiaberta.
- Bowles cuidar de arrumar o resto do camarote e dar um sumio neste
cinto - disse o marqus. - Agora, venha comigo.
Ele sorria enquanto falava, sabendo que o que acabara de fazer fora uma
espcie de mgica. Mais uma vez correspondia exatamente ao que Daniela
esperava dele.
De repente, lembrou-se que ela o obedecera prontamente quando lhe pedira
para levantar-se da cama. S ento notou que, ali em p no centro do
camarote, com a luz do sol a ilumin-la, Daniela usava apenas uma
camisola. Ela mesma parecia esquecida desse detalhe, confirmando mais uma
vez sua pureza e inocncia.
Apanhando o neglig de seda que estava sobre uma cadeira, o marqus
ajudou-a a vesti-lo. Em seguida, disse:
- Venha comigo. vou levar um dos seus travesseiros, de forma que voc
ficar mais confortvel.
Daniela olhou-o de olhos arregalados. Apesar de assustada, no entanto,
comportava-se obedientemente, certa de que
o marqus no a decepcionaria.
Ele a levou para seu prprio camarote, onde abriu o armrio em que
estavam penduradas todas as suas roupas. Mais uma vez ouviu-se um
estalido e o fundo do armrio correu para o lado.
 frente de Daniela abria-se um compartimento escuro, mais fundo que o do
outro camarote. No foi preciso que o marqus lhe dissesse que era ali
que ficaria escondida. Sem mais delongas, ela entrou na pequena abertura
e acomodouse o melhor que pde, usando o travesseiro que o marqus lhe
estendia.
- Eu sei que a dentro  escuro - desculpou-se o marqus -, mas h
bastante ar, e voc no vai ficar sufocada. Mantenha o maior silncio
possvel. Prometo vir solt-la to logo me livre da polcia costeira.
Por um momento ela olhou para cima, bem dentro dos olhos do marqus,
antes que o fundo do guarda-roupa se fechasse.
Poucas pessoas conheciam esse seu lado, mas em diversas ocasies o
marqus prestara servios sigilosos para o ministro do Exterior. Vezes
sem conta trouxera ingleses que enfrentavam dificuldades em pases
estrangeiros, nos quais estavam detidos ilegalmente. Jamais se ouvira o
menor boato sobre essa sua atividade, em Londres. De qualquer forma,
ningum teria acreditado que o marqus de Crowle pudesse envolverse em
algo to perigoso, e em alguns casos, at mesmo repreensvel em termos de
diplomacia.
Seria extremamente difcil trazer essas pessoas  Inglaterra sem ter onde
escond-las. Por isso o marqus mandara remodelar o Cavalo-Marinho e
acrescentara aqueles compartimentos ao seu iate, alm de mais alguns
truques, contando claro com o absoluto sigilo da Marinha britnica.
Nenhum policial, de pas algum, a quem fora dado o poder de fazer uma
busca em seu iate, jamais descobrira aquels
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compartimentos.
Enquanto pensava que era a primeira vez que seus esconderijos eram usados
por uma mulher, rapidamente ele se vestiu.
Faltava apenas colocar a gravata e sua jaqueta de bordo, quando Bowles
entrou no camarote e recebeu ordens de livrarse de todos os vestgios da
presena de Daniela no CavaloMarinho.
- Certifique-se de que o camarote de Daniela d a impresso de no ser
usado h tempos - advertiu-o o marqus.
- Deixe comigo, milorde - Bowles replicou. Enquanto o valete desaparecia
no camarote de Daniela, o
marqus se dirigia com toda a calma e com grande dignidade ao salo do
iate.
O policial acabava de tomar o farto caf da manh que lhe fora servido,
mas ainda assim levantou-se para cumprimentar respeitosamente o marqus,
to logo o viu entrar.
Aps apertarem-se as mos, o marqus perguntou:
- Agora, gostaria muito que me explicasse o que est acontecendo. Meus
documentos esto em ordem, e no temos problema nenhum desde Baden-Baden.
- Tenho certeza que no - replicou o policial -, mas receio que haja uma
acusao judicial contra sua excelncia, alegando que o senhor teria
sequestrado uma menor.
O marqus olhou-o como se no tivesse entendido uma palavra do que ele
dissera. Ento exclamou:
- Nunca ouvi maior absurdo! Deve ser uma brincadeira, na minha opinio,
de pssimo gosto!
O policial parecia pouco  vontade.
Pelo canto dos olhos o marqus percebeu que j entravam no porto de
Colnia. Assim que o motor do iate foi desligado, o delegado de polcia
local, muito pomposo e imponente em seu complicado uniforme, subiu a
bordo acompanhado de mais dois policiais. Ainda assim, era bvio que ele
estava
impressionado com o marqus e seu luxuoso iate.
Ao ser levado para dentro do salo por dois marinheiros, o marqus
percebeu que aquele homem faria tudo para ser mais polido do que
costumava ser em outras ocasies.
com grande cortesia, convidou o oficial a sentar-se, indicando-lhe a mais
confortvel poltrona do salo, para ento explicar novamente:
- Como eu j disse ao seu policial, s posso imaginar que isto tudo no
passe de uma extraordinria brincadeira. Mesmo assim, se os senhores
esto dispostos a lev-la a srio, usarei do meu direito de consultar-me
com a embaixada britnica local e pedirei para que protestem oficialmente
ante o que nada mais  que uma grande intromisso em minha privacidade!
com toda certeza, o delegado no esperava por essa reao. E aps uma
pausa bastante incmoda, ele retrucou, pausadamente:
- No tenho a menor inteno de fazer deste caso um incidente
diplomtico, excelncia.
- No est querendo sugerir que seja ento um incidente criminal, est?
- No, certamente que no! - apressou-se a responder o oficial. - Para
mim est mais do que claro que a mulher que entrou com esta acusao
contra o senhor na justia cometeu um terrvel engano!
- Exatamente! - concordou o marqus. - Por favor, no quero que a notcia
se espalhe, pois estou sendo esperado por Sua Majestade, a rainha
Vitria, no castelo de Windsor o mais rpido possvel. Por isso, no
posso me demorar tempo demais aqui em Colnia!
- Entendo perfeitamente, excelncia - disse o delegado.
- Por isso mesmo sugiro que o senhor permita que meus homens procedam a
uma rpida busca pelo seu iate. Poderemos ento liber-lo com maior
rapidez, e relatar que a acusao contra o senhor  absolutamente
infundada.
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O marqus no respondeu imediatamente, como se refletisse sobre o que
acabava de lhe ser proposto. Afinal, replicou:
- Muito bem, eu lhe dou licena para inspecionar meu iate. Mas asseguro-
lhe que se encontrar o que procura, ficarei extremamente surpreendido!
Por outro lado, se no encontrar, como eu j disse, creio que ns dois
teremos o direito de exigir desculpas: o senhor, dessa mulher que o fez
sair ao meu encalo; e eu, do seu governo!
Sem mais perda de tempo, o delegado deu uma ordem em alemo aos seus
subalternos. Prontamente eles seguiram Bowles, que os levou pela escada
que conduzia aos camarotes.
 - Enquanto os esperamos - voltou a dizer o marqus
- sugiro que o senhor me acompanhe em um copo de vinho. Sei que ainda 
cedo, mas estes ridculos incidentes, que imagino no sejam raros na sua
profisso, ao menos no nos devem privar das coisas boas da vida!
O marqus s tomara um pequeno gole do seu copo, enquanto o delegado
bebia avidamente o excelente vinho que lhe fora servido, ao mesmo tempo
que discorria sobre algumas das peripcias por que passava quase que
diariamente em sua vida profissional.
Finalmente os policiais voltaram ao salo. No foi preciso que dissessem
nada para que o delegado soubesse qual fora o resultado da busca. Assim,
pondo-se imediatamente em p, ele disse:
- Lamento profundamente esse transtorno, excelncia. Especialmente por
tratar-se de uma acusao absolutamente falsa, que ainda provocou o
atraso de sua viagem. Esteja certo que farei um relatrio fiel ao juiz, e
o senhor dever receber um comunicado da corte de Colnia, desculpando-se
oficialmente pelo ocorrido.
E ento, em voz mais baixa:
- E muito obrigado pelo vinho. Estava simplesmente delicioso!
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O marqus agradeceu inclinando a cabea.
Imediatamente o delegado virou-se e, acompanhado pelos demais policiais,
retirou-se do iate. O Cavalo-Marinho podia agora continuar em seu caminho
para a Inglaterra.
O marqus, no entanto, era experiente demais para tomar qualquer deciso
precipitada. Sabia que estariam sob vigilncia enquanto no se afastassem
de Colnia. Por isso, enquanto o iate se afastava do porto, ele saiu para
o convs, colocando-se onde qualquer pessoa que o observasse da terra
firme pudesse v-lo.
A toda velocidade, deixaram Colnia para trs.
S quando a torre da catedral no era mais visvel e de ambos os lados do
rio voltavam a surgir as colinas e os castelos mgicos de que Daniela
tanto gostava, ele desceu para o seu camarote. Trancando a porta atrs de
si e tirando a jaqueta que o sufocava, acionou o dispositivo que abria a
porta do esconderijo secreto.
Por um momento nada conseguiu ver seno a escurido.
- Daniela! - chamou, ansiosamente. Ela ento saiu dali de dentro,
rapidamente.
Era como uma criana saindo de um quarto escuro para a luz, atirando-se
contra o marqus e pendurando-se em seu pescoo freneticamente.
- Voc me salvou! - ela gritou. - Eu ouvi as vozes deles, e fiquei
terrivelmente assustada. Mesmo assim voc conseguiu, outra vez!
Nesse momento, toda a tenso e o medo que sentira naquela escurido pesou
demais sobre seus ombros, e ela se ps a chorar.
Os braos do marqus rodearam-na instintivamente. Ele podia sentir a
suavidade do corpo dela tremendo contra o seu.
- Est tudo bem - procurou acalm-la, gentilmente. Eles j se foram, e
at pediram desculpas por terem suspeitado
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de mim! Mais uma vez conseguimos enganar sua madrasta!
- Mas ela vai tentar outra vez, e mais outra! - choramingou Daniela. - O
que  que eu posso fazer? Existe algum lugar no mundo para onde eu possa
ir para me ver livre dessa mulher?
O marqus ainda no tinha as respostas para tais perguntas. E nem sequer
sabia que um dia as teria. Por isso, limitouse a mant-la bem junto de
si, esperando que a fora dos seus braos e o fato de estar ali pudessem
confort-la mais que palavras.
Finalmente, levantando a cabea, ela desculpou-se, um tanto
incoerentemente:
- Eu o molhei todo, veja!
Suas lgrimas haviam penetrado no tecido branco de linho da camisa do
marqus. Ele podia sentir a umidade em sua pele.
- No tem importncia. Agora vamos, sorria. Voc no est com fome? Eu
estou morrendo de vontade de tomar o meu caf da manh!
Daniela sorriu debilmente.
- Como posso pensar em comer, quando mais uma vez, com essa espada mgica
que  sua mente, voc enganou o inimigo?
Mesmo com as lgrimas a escorrer-lhe pelo rosto, seus olhos brilhantes e
o sorriso incerto, ela no poderia ser mais encantadora.
Afinal o marqus no conseguiu mais se conter. Curvando-se, uniu seus
lbios aos dela. No tivera a inteno de fazlo, mas naquele momento
toda a razo cessara de ordenarlhe pensamentos e aes. S um beijo era
capaz de traduzir com exatido seus sentimentos por Daniela.
Ela, por sua vez, retesara-se, surpresa, sob o abrao forte do seu
protetor. Seus lbios jovens e inocentes provaram ser to suaves quanto o
marqus imaginara.
Nunca em toda sua vida ele experimentara sensao igual.
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Era muito diferente beijar uma mulher a quem meramente desejava, ainda
que ela se esforasse por fingir uma paixo avassaladora.
Para ele, Daniela nada mais era que uma criana precisando de proteo e
carinho. Mas os sentimentos a explodiremlhe o peito diziam que em seus
braos havia uma mulher.
Abraando-a forte, seus corpos unidos como que por uma fora invencvel,
aquele beijo foi se tornando mais e mais ansioso, possessivo at. Ele
sabia que Daniela sentia o mesmo.
Ela vivia um momento do mais completo xtase, como se a carregassem para
o cu. E por isso entregava-se de alma aberta quele homem que a
protegera e agora a beijava com tanto ardor.
Era como se o mundo de fantasia que Daniela tanto citara se tornasse
realidade para os dois naquele instante.
Afinal, lutando contra o prprio desejo, o marqus afastou-se,
reconhecendo o enlevo indescritvel na expresso de Daniela. Ela estava
ainda mais bonita, os olhos brilhando como se ainda refletissem as
estrelas do cu ao qual seu beijo a elevara.
Na sua pureza e sinceridade, Daniela escondeu o rosto contra o peito do
marqus, e perguntou-lhe, a voz quase inaudvel:
- Ser que  isto... o amor?
- Sim, minha querida - respondeu o marqus. - Nunca imaginei que o
encontraria de forma to inesperada, mas alegra-me que isto tenha
acontecido agora. Voc  a pessoa mais bonita que j vi, e nunca deixarei
que a roubem de mim!
Mais uma vez Daniela estremeceu, mas dessa vez no era de medo.
-  como se fosse um sonho! - ela sussurrou. - Sintome pisando em nuvens,
naquelas que o meu cavaleiro encantado construiu s para mim!
- O melhor  que no  sonho, mas sim a mais pura realidade!
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E ento ele a beijou novamente, at sentir que tambm pisava as mesmas
nuvens.
Eram ambos uma orao de gratido que Daniela enviava a Deus.
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CAPTULO VII

- Amanh estaremos em Roterd - lembrou o marqus. Daniela olhou para ele
apreensiva. Temia que a polcia mais
uma vez os abordasse, sob instigao de sua madrasta.
Percebendo seu receio, o marqus passou o brao ao redor dela, procurando
tranquiliz-la:
- No fique preocupada, minha querida. Tenho um novo plano para salv-la
em definitivo. S depende de voc.
- Farei qualquer coisa que quiser - replicou Daniela, mas no posso
evitar o medo, mesmo estando com voc.
O marqus puxou-a mais para perto como se para protegla, e continuou:
- Quando chegarmos a Roterd, a Alemanha ficar para trs e entraremos em
guas da Holanda. Portanto, no haver mais motivos para voc ficar se
escondendo.
Embora tivesse despistado a polcia, em Colnia, temia que ainda
mantivessem o Cavalo-Marinho sob vigilncia. Por isso, enquanto desciam o
Reno, no permitira que Daniela sasse para o convs a no ser quando j
estivesse escuro demais para que algum pudesse v-la.
Na maior parte do tempo, ficavam os dois sentados no salo do iate, ou
desciam para o camarote de Daniela, e ali ficavam conversando.
Embora achasse incmoda aquela situao, o marqus estava determinado a
no dar chances ao acaso. Nada podia ser mais perigoso que uma mulher m
e ansiosa por vingana, como era o caso de Esm.
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Daniela, no entanto, mais do que o medo de ser encontrada, vivia momentos
de extrema felicidade por saber-se amada pelo marqus.
Por isso mesmo, ela temia serem importunados novamente pela polcia, a
cada vez que se aproximavam de alguma cidade. Se isso acontecesse, os
policiais seriam mais rigorosos dessa vez. E talvez o marqus viesse a
sofrer alguma penalidade por estar acobertando-a, e isso ela no
suportaria.
Como ele dissera, no dia seguinte chegariam  Holanda. Daniela sabia
muito pouco a respeito desse pas. Na escola os professores sempre o
descreviam como um pas desinteressante e inexpressivo. Mas no momento em
que podia subir ao convs com o marqus, o Cavalo-Marinho atravessando
suavemente a escurido, a Holanda lhe parecia ser a prpria terra
prometida, os portes para o mar do Norte. Bastaria atravess-los, e
muito em breve estariam em casa.
Vendo-a to pensativa, o marqus achou que seria uma boa oportunidade
para perguntar.
- Quer ouvir meu plano agora, querida?
- Claro - Daniela respondeu. - Os seus planos sempre do certo. Voc 
to inteligente, to brilhante... ningum mais seria capaz de agir com
tanta esperteza.
Mais uma vez ele se surpreendeu ao ouvir uma mulher elogilo por sua
mente, e no apenas por seu corpo ou dinheiro, o que era bem mais comum.
Daniela era mesmo muito diferente de qualquer outra pessoa que j
conhecera. Quanto mais pensava nisso, mais apaixonado ficava.
Era extraordinrio saber que depois de tantos anos e tantos casos
amorosos, s agora vinha a conhecer a profundidade e a maravilha de estar
apaixonado.
Na verdade, o que at ento chamara de amor nada mais era que desejo,
capaz de entusiasmar, sim, mas tambm de acabar em pouqussimo tempo.
Nem mesmo uma pequena brasa ardente restava ento para
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faz-lo lembrar-se de como se sentira um dia.
com relao a Daniela acontecia algo completamente diverso. Era um
sentimento que crescia dia a dia, aumentando-lhe o fascnio pelos novos
aspectos do carter e personalidade dela que vinha paulatinamente
descobrindo.
 noite, deitado na cama, pensava e repensava nas coisas que ela dizia
durante todo o tempo em que passavam juntos.
Alm de tudo isso, o fato de estar salvando Daniela de sua terrvel
madrasta o levara de volta aos ideais de honra que tinha quando jovem. O
mundo social rapidamente os destrura, pelo comportamento promscuo das
mulheres bonitas com as quais passara a conviver, bem como pela atitude
cnica dos homens que o bajulavam.
Para eles uma mulher bonita era um bom partido, enquanto que para elas,
um homem precisava ser muito rico para merec-las.
Os valores do marqus, porm, eram outros. E desde que descobrira sua
paixo por Daniela, no cansava de repetir que era o homem mais feliz do
mundo.
Naquele momento, olhando-a detidamente, concluiu que ela era mais bonita
que qualquer outra mulher que j tivesse visto. E no s fisicamente, por
seu cabelo sedoso e sua pela clara e limpa, mas principalmente por sua
beleza interior, que se espelhava em seu rosto, como uma luz divina.
Percebendo que devaneava enquanto Daniela esperava para ouvir qual era o
seu plano, ele afinal disse:
- Meu plano  o seguinte, querida: antes que voltemos  Inglaterra e
enfrentemos todos os problemas que nos esperam, sugiro que nos casemos!
Daniela arregalou os olhos e chegou mais para perto do marqus, como se
quisesse certificar-se de que ele realmente estava ali.
- C-casar? - ela sussurrou. - E isto ... possvel?
- Eu sei que as coisas esto acontecendo depressa demais
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para voc - emendou o marqus, timidamente. - Mas tenho pensado bastante
no assunto e conclui que, mesmo na Inglaterra, voc no ter sossego se
no tiver quem a proteja. Alm do mais, eu a amo tanto...
Daniela parecia petrificada. At que, num impulso, ela estendeu as mos
para segurar-lhe os braos, e disse:
- Eu quero muito ficar com voc! No saberia o que fazer se algo me
acontecesse e voc no estivesse por perto. Alis, creio que j nem
saberia viver dessa forma...
- Daniela - voltou a dizer o marqus, agora ainda mais animado -, eu a
amo de um modo to sublime que no consigo descrever em palavras este meu
sentimento. Mas saberei expressar-me melhor, e com muito maior
eloquncia, assim que voc for minha esposa.
- Ento vamos nos casar - decidiu Daniela. - Receio que algumas pessoas
fiquem um tanto chocadas, mas isso no tem a menor importncia.
Achando que talvez no se fizesse compreender, Daniela acrescentou:
- No falo por mim. Mas voc tem tantos amigos, inclusive na realeza.
Todos se surpreendero com este sbito casamento.
- No me importa a opinio dos outros. Tudo o que eu quero agora, meu
amor,  casar-me com voc, de forma a poder lutar as suas batalhas, como
voc quer que eu faa.
Ela sorriu. E seus olhos refletiram mais uma vez a figura de um poderoso
cavaleiro, digno de um belssimo conto de fadas, prestes a destruir um
drago ou qualquer outro inimigo que ousasse ameaar a mulher amada.
- Quando chegarmos a Roterd - continuou o marqus
- o capito receber ordens de atracar no porto, e nos dirigiremos ao
consulado britnico.
Daniela escondeu o rosto contra o peito do marqus.
- Voc est to seguro - disse ela, em voz muito baixa.
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- Ser que no vai se arrepender por ter se casado comigo, mais tarde?
- Eu sei o que quero, Daniela - replicou o marqus, com grande convico.
- E o que eu quero  voc, meu amor.
O Cavalo-Marinho chegou a Roterd bem cedo na manh seguinte, e atracou
quando o porto apenas comeava a agitar-se. Receoso que a guarda costeira
pudesse procur-los como acontecera em Colnia, o marqus ordenou que o
caf da manh de Daniela lhe fosse servido no camarote, enquanto ele
comia no salo.
Um marinheiro foi mandado  terra para alugar uma carruagem confortvel,
de preferncia puxada por dois cavalos. Afinal, o sol ainda se levantava
sobre a cidade, e j o marqus descia a prancha com Daniela, dirigindo-se
rapidamente  carruagem que os esperava.
Enquanto partiam em direo ao consulado, Daniela segurava firmemente a
mo do marqus entre as suas, admirando o belo dia que ia nascendo.
Ela usava o vestido branco mais caro que sua madrasta insistira em
comprar em Paris e, sobre a cabea, um bonito chapu enfeitado com flores
brancas.
O marqus ficara encantado quando a vira, comparando-a imediatamente com
a mais bela das flores. Ainda que tivesse convivido com lindas mulheres
em toda a sua vida, Daniela era de longe a mais bela, a mais graciosa.
Sentindo um leve tremor agitar os dedos dela contra os seus, ele
perguntou:
- Est com medo, querida?
- Um pouco - ela respondeu -, mas felizmente at agora no apareceu
nenhum policial para nos ameaar.
O marqus levou-lhe as mos at seus lbios e beijou-lhe os dedos, um
aps o outro.
- Voc tem de confiar em minhas palavras - disse ento.
120
- Prometo que jamais permitirei que a levem de mim! Dentro em breve voc
ser minha esposa, e ningum, nem mesmo Esm Blanc, poder nos separar.
O sorriso de Daniela parecia reluzir mais que o prprio sol, enquanto
prosseguiam em silncio.
O consulado de Roterd em nada diferia dos demais consulados britnicos
em todas as partes do mundo, na opinio do marqus. Ocupava um prdio
branco imponente, com a bandeira britnica tremulando sobre um mastro na
frente. Duas sentinelas guardavam a entrada, do lado de fora de suas
guaritas.
Para alm do porto principal, de ferro fundido, todo trabalhado,
estendia-se um belo jardim, cheio de canteiros de gernios cercados por
violetas brancas e azuis.
Assim que desceram da carruagem, o marqus pediu para ver o cnsul, sir
Robert Fraser Turing. Depois de uma rpida espera na ante-sala, foram
conduzidos ao escritrio particular do cnsul.
Um homem alto e elegante levantou-se quando foram anunciados e estendeu-
lhes a mo, todo sorridente.
- Meu caro Crowle! - ele exclamou, surpreso. Voc  a ltima pessoa que
eu esperava ver na Holanda.
-  um prazer para mim rev-lo, sir Robert - replicou o marqus. - Para
ser sincero, vim procur-lo porque preciso de sua ajuda.
Ele apresentou Daniela, ciente da admirao e curiosidade com que sir
Robert a olhava. O cnsul convidou-os a sentarem-se e perguntou ento:
- Em que posso ser til? Soube de seu sucesso nas corridas de cavalo.
Alis, quero parabeniz-lo por ter vencido no ano passado a Copa de Ouro
de Ascot.
- Ora, s o que tive foi um bom cavalo e muita sorte respondeu o marqus,
modestamente. - Mas receio no ter
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tempo para conversar sobre cavalos agora. H um assunto muito mais srio
e urgente que preciso resolver.
Aps uma pausa, como que para dar tempo para a curiosidade do seu amigo
cnsul aumentar, o marqus continuou:
- Tenho a impresso, sir Robert, que o que tenho a lhe dizer ser um
tanto constrangedor para a senhorita Brooke. Por isso, gostaria de pedir-
lhe, se no for abusar demais, para que ela fique com a sua esposa por
alguns minutos. Ou talvez com algum membro de sua equipe em quem o senhor
realmente confie. S no quero que ela fique sozinha.
A surpresa estampada nos olhos de sir Robert s fez aumentar ante tais
palavras, e ele apressou-se a dizer:
- Claro! Minha esposa ficar encantada. Ela est escrevendo cartas para
nossos filhos na Inglaterra, na sala de estar. E assim dizendo, sir
Robert levantou-se. Daniela aproveitou para lanar um olhar de reprovao
ao marqus, pois que no tinha a menor vontade de deix-lo. Ainda assim,
acompanhou o cnsul at a sala de estar, onde a senhora Turing sugeriu
que tomassem uma xcara de ch.
Ela era uma pessoa encantadora, que ainda conservava muito da beleza que
tivera quando jovem. Havia uma gentileza em seus gestos que fez Daniela
lembrar-se de sua me. Sir Robert voltou para o escritrio.
- Agora conte-me, Crowle, de que se trata tudo isto? ele perguntou. -
Voc realmente conseguiu aguar minha curiosidade!
O marqus contou-lhe a histria toda, sem omitir detalhe algum. Quando
acabou seu relato, sir Robert o olhava embasbacado.
- E  exatamente por isso, meu caro Robert - terminou o marqus,
revelando afinal o seu grande segredo -, que  to importante que eu e
Daniela nos casemos imediatamente! O senhor no pode imaginar como
estamos apaixonados!
- Oh, mas que bela notcia! - exclamou sir Robert.
122
- Imagino que haja uma igreja protestante aqui em Roterd, e um pastor
para oficiar o casamento?
- Sim, claro. H uma igreja vizinha aqui ao consulado, que  onde toda a
minha equipe se rene. Temos um proco ingls que cuida de realizar as
cerimnias nas ocasies especiais.
O marqus sorriu.
- Era exatamente o que eu esperava.
Sir Robert chamou seu secretrio particular para dar-lhe algumas rpidas
instrues, levando em seguida o marqus  sala de estar, onde estava
lady Fraser Turing e Daniela.
 esposa do cnsul, ao ouvir que o marqus estava prestes a casar-se,
lanou-lhe um olhar travesso, e comentou:
- Sempre ouvi dizer, milorde, que o senhor era um solteiro convicto. Mas
no me  difcil entender a mudana no seu corao, levando-se em conta a
beleza da encantadora srta. Brooke.
O marqus viu Daniela enrubescer ante o elogio, tornando, se ainda mais
bela. Era emocionante v-la to tmida e pura.
- Seu marido foi muito gentil em cuidar dos preparativos para que nosso
casamento acontea imediatamente - decla rou o marqus. - Mas tenho ainda
um favor a lhe pedir. Ser que poderia nos emprestar um par de alianas,
ou talvez nos indicar o joalheiro mais prximo?
- Posso sim - disse lady Fraser Turing, contente em poder ser til. -
Tenho aqui a aliana de casamento de minha
me, e estou certa que ficar muito bonita na srta. Brooke.
- Oh, mas a senhora no se importar em se desfazer dela? - perguntou
Daniela, preocupada. - Talvez estranhe que eu no tenha a de minha me,
mas ela foi to feliz com papai que, ao falecer, deixou uma carta dizendo
que desejava ser enterrada com sua aliana.
- Eu compreendo - tranquilizou-a lady Turing, suavemente. - Acho que se
morrer antes do meu marido, vou fazer a mesma coisa.
Sir Robert ergueu as mos para cima e exclamou:
- No vamos ficar aqui falando de morte, agora! Estamos prestes a
comemorar o casamento do meu amigo marqus! vou abrir uma garrafa de
champanhe para comemorar este acontecimento e desejar aos noivos uma
longa vida juntos e toda a felicidade!
- tima ideia - sua esposa concordou. - Enquanto no vem o champanhe,
levarei a srta. Brooke l para cima. Ela haver de querer arrumar-se um
pouco antes de ir para a igreja.
Meia hora mais tarde elas desceram novamente, Daniela mais bela do que
nunca. Lady Fraser Turing no deixou de perceber o olhar apaixonado e de
pura admirao nos olhos do marqus, e sorriu satisfeita. Como gostava de
ver duas pessoas se unindo por amor, e no por um simples capricho de
duas famlias, interessadas em unir fortunas!
Enquanto bebericavam o champanhe que sir Robert fizera servir, a porta da
sala de estar se abriu e o secretrio particular do cnsul entrou,
anunciando:
- O capelo j se encontra na igreja,  espera dos noivos, milorde.
Daniela esperava que o cnsul e sua esposa os acompanhassem. Mas quando
ela e O marqus seguiram o secretrio pela porta lateral do consulado,
descobriu que estavam sozinhos.
Assim que saram para o ptio do consulado, um valete aproximou-se e
estendeu ao marques um buque de rosas brancas e lrios do vale.
Beijando levemente as flores, o marqus passou-as para sua noiva.
A igreja ficava pegada ao consulado, logo aps o jardim. Enquanto
caminhava para l, ao lado do marqus que lhe segurava a mo, Daniela
teve a impresso de que o sol daquele dia brilhava at mais forte. Os
pssaros cantavam alegremente nas rvores, e pairavam borboletas sobre as
flores, despreocupadas.
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O perfume que exalava dos canteiros do jardim emprestava  felicidade de
Daniela um xtase maior.
A igrejinha velha mas bem conservada guardava dentro de si o mesmo
esprito que haviam levado para seu interior vrias geraes de fiis,
que para ali acorriam para agradecer a Deus as bnos recebidas. A luz
entrava colorida pelos vitrais das janelas. Daniela subiu lentamente pelo
corredor principal da igreja. Um rgo tocava uma melodia muito suave
enquanto o clrigo, um senhor idoso, lia as palavras da cerimnia de
casamento com absoluta sinceridade.
Para Daniela, aquele era o momento em que se entregava totalmente ao amor
que tinha pelo marqus. Enquanto ele coocava a aliana em seu dedo, ela
pensou:
Agora eu perteno a ele. Sou sua esposa, e estou salva para sempre!
Obrigada, Senhor. Muito obrigada!
Afinal, saram da igreja, depois de receber os cumprimentos e votos de
felicidades do proco.
Como se pudesse ler os pensamentos de Daniela, o marqus levou-a direto
para a carruagem que ainda os esperava, ansioso por ver-se a ss com sua
to adorada esposa. E, rapidamente, partiram em direo ao iate.
Olhando nos olhos de Daniela, como que enfeitiado, o marqus no fazia
ideia de que, naquele exato momento, vindo ni direo a eles, corria uma
carruagem aberta puxada por cavalo. E dentro dela, vinha Esm Blanc.
Quando ela viu a carruagem que vinha da direo do consulado, coincidindo
com a descrio que lhe haviam feito da carruagem que o marqus alugara
naquele mesmo dia, mais que depressa gritou ao cocheiro que parasse. Ele
mal teve tempo de atend-la e Esm j abria a porta da carruagem e
saltava para a rua.
Ela ps-se a correr ento, agitando freneticamente os braos, e gritando.
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Nesse momento a carruagem em que ia o marqus estava bem perto. O
cocheiro conversava com o lacaio, sem perceber que Esm se aproximava.
A plenos pulmes, ela gritava para os ocupantes da carruagem,
gesticulando e pedindo para que parassem.
Mas o marqus passara os braos ao redor de Daniela, e estava dando-lhe
um longo, lento e apaixonado beijo, esquecido do mundo exterior.
Esm Blanc ainda tentou esquivar-se, mas a roda da carruagem, que passava
em desabalada carreira, bateu-lhe na perna e atirou-a longe, estatelando-
a na rua.
Foi tudo to rpido que ningum poderia prever o que aconteceria. Na
direo oposta, vinha uma outra carruagem, dirigida por um jovem que
pouco controle tinha dos seus cavalos. E antes que ele tivesse tempo de
fazer alguma coisa, um dos animais, assustado com aquela mulher caindo 
sua frente, empinou, e atingiu Esm na cabea, com a pata dianteira. E,
logo em seguida, as rodas da carruagem passavam por cima dela. Esm foi
socorrida e levada para um hospital, mas morreu antes que ali chegasse.
Passaram-se mais de sete dias at que a informao chegasse ao consulado
britnico de que havia o corpo de uma mulher chamada Esm Blanc no
necrotrio. A notcia foi ento imediatamente transmitida ao marqus e 
marquesa de Crowle, na Inglaterra.
Quando voltaram ao Cavalo-Marinho o almoo j os esperava.
Sem ter ideia de que j no havia mais motivo para pressa, o marqus deu
ordens para que partissem imediatamente de Roterd, e prosseguissem
viagem em direo  Inglaterra.
O cozinheiro superou a si mesmo no seu esforo de prepararlhes uma
refeio de npcias soberba. Daniela teve a impresso de que comia a
prpria ambrsia dos deuses.
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Terminado o almoo, o marqus sugeriu que fossem para o camarote, e ela
concordou prontamente. Pensou que ele pretendia beij-la outra vez, mas
quando chegaram ao camarote ele disse:
- Creio que, como nos levantamos muito cedo, minha querida, devamos
descansar um pouco. E como est muito quente no convs, estar mais
fresco no seu camarote.
Daniela olhou-o como se no entendesse o que ele pretendia, e o marqus  continuou:
- Quero-a bem junto de mim, meu amor, e agora que voc  minha esposa,
vou ensin-la tudo sobre o amor! Ser a coisa mais excitante que eu j
fiz em toda minha vida!
E ento beijou-a gentilmente.
Daniela entrou em seu camarote e despiu-se rapidamente, vestindo em
seguida a sua mais bela camisola, antes de ir para a cama.
Passados alguns minutos, o marqus entrou sem bater. Tambm ele se
trocara, e usava um robe comprido de seda.
Sentando-se na beirada da cama e tomando-lhe a mo, ele disse:
- Como  possvel que algum seja to bonita como voc? Sentindo que os
dedos de Daniela tremiam ligeiramente, perguntou ainda:
- No est com medo de mim, meu amor, est?
- No... de voc, no - ela respondeu. - Mas suponha, depois de tudo que
voc me disse, que eu o desaponte?
- Isso  impossvel! - exclamou o marqus, sorrindo.
- Por qu?
- Porque voc  exatamente o que eu tenho procurado toda minha vida, mas
no tinha percebido. Tinha decidido no me casar simplesmente porque eu
achava que qualquer mulher iria me aborrecer depois de um perodo de
tempo muito curto. Ainda assim, eu tinha guardado bem no fundo do meu
corao o sonho de que um dia encontraria... voc.
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- Isso  maravilhoso... tudo o que voc est me dizendo
- Daniela sussurrou -, mas... me promete uma coisa?
- Tudo que voc pedir - replicou o marqus.
- Promete que se eu fizer alguma coisa de errado... voc me diz? Se eu
cometer algum erro, no vai se zangar!
- Eu prometo - disse o marqus.
Ningum poderia falar aquilo de forma mais tocante. Assim pensando, e
sabendo que seus lbios ansiavam pelos dela, ele ainda no a beijou. Em
vez disso, tirou o roupo e deitou-se ao lado dela.
Sem poder controlar-se por mais tempo, ele a puxou para junto do seu
corpo, e a beijou apaixonada, possessiva e ternamente.
Encontrara em Daniela uma poro da perfeio divina. Era to bela que j
se tornara parte de sua prpria alma.
Para ela, o marqus tinha a beleza que aprendera a descobrir em tudo e
principalmente na prpria vida.
Ele a apertou mais contra seu corpo e seus beijos se tornaram mais
urgentes e apaixonados. Viviam o xtase de amar e ser amado, o encanto
que todos os homens procuram.
- Eu amo voc! - Daniela murmurava a todo tempo. E esse amor  como uma
msica, que soa no ar, e tambm no meu corao!
- E est soando tambm no meu! - exclamou o marqus.
- Minha querida, eu te amo tanto, tanto! Prometo que vou proteg-la e
ador-la enquanto o mundo existir.
- Eu sempre me sentirei a salvo ao seu lado. Mas por favor, me ame. Oh,
me ame!
E a msica que lhes ecoava por dentro atingiu seu apogeu, e uma luz
jorrava de dentro dos seus coraes.
J no estavam mais na terra, mas em um cu que era s deles.
No havia medo, nem maldade, mas somente amor ali.
128

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais.
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e 
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
Fim
